A poética do encontro, a dança da invenção

Pensar a poética dos encontros nos convida a envolver-se com as invenções. Olhar tudo, como determinado, deixa um cansaço. Mesmo que não saibamos a exatidão do caminho, é importante não afirmar a sobrevivência de um desmantelo total. A ameaça das incertezas faz parte da dança da vida. Procuramos garantias, iluminanos o cais das embarcações mágicas, mas a travessia  tem um desenho descontrolado. Há relâmpagos que parecem ter de fato ideias… Permitem compreender,- daqui, até ali… E no entanto me deixam incerto. Incerto não é bem a palavra… Quando a coisa está para vir, sinto em mim algo de confuso e difuso(Valéry).

Mergulhemos nas metáforas do poeta. É como escutar o bater de asas de um beija-flor. A sensibilidade flui. Abraça-se com a beleza. Ela é a verdade, sem pretensões de objetividades eternas ou fundamentos absolutos. O que fica na invenção é poder de surpreender-se. O inesperado sacode agonias e brinca com dúvidas. No entanto, não está divorciado da dimensão estética. A confusão é, também, um encontro. Sua geometria dialoga com os retornos, porém arquiteta as possibilidades do futuro. Nada se esgota. Na incompletude humana, o espaço da criação tem continuidades e ousadias, completadas pelas amarguras e frustrações.

O encontro não está marcado no calendário numérico. É cenário de comédias e de tragédias. Não dá para nomeá-lo com antecedência. O sentido vem depois da sutileza das narrativas. As palavras se juntam para esclarecer. É uma pretensão poética, sem linhas cartesianas. Dançam um tango de Piazzolla. Quem se move, não se aborrece. Vai adiante, sem muitas perguntas, apenas com coração abrindo todas as portas e contemplando, de longe, as borboletas vermelhas voando sobre os jardins da imaginação. Portanto, é o território da arte que se expande, aconchegando o sonho que estava solto.

Explicar cada ato humano é uma simulação. Aprisionar a linguagem para que ela coincida, com o real, é  desconhecer a multiplicidade. Não existe um real definido, largado na história. Sua formação aponta relações de poder, descreve governos, muitas vezes, opressivos. Não é estranho perceber nos traços da ficção o descortinar do futuro e o desbotar dos passados. Os tempos não se calam. Mostram-se silenciosos, para validar disfarces e esconder desencontros. As palavras não possuem significados terminados. O que se apresenta como ordem, no século VI, talvez seja uma desordem, sem igual, em 1963. Por isso, ambiguidade visita a poética do encontro. Sua fantasia não impede sua história,  deslocamentos constantes.

A soltura luta contra os fechamentos, de forma ardilosa. Suas armaduras lembram penas de pássaros gigantescos, mas não desejar se resumir ao peso ou à força. Prefere a astúcia. Borda os gestos, com cores efêmeras, para enganar quem costuma aprisionar os voos. A poética exige pés fora do chão, mãos vadias, olhos serenos, contaminados pelas estrelas. Não se fixam e viajam nas ternuras das melodias de Ravi Shankar. Quem se atormenta, com a leveza, está com as raízes atrofiadas pelo pecado original. Se a invenção se demancha, a poética se afunda. O afeto se perde na mordida da maçã.

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10 Comments »

 
  • Monique disse:

    Que belíssima imagem, Antonio!
    É sempre um prazer a leitura dos seus textos.É uma lástima a correria dos dias e afazeres me manter distante desse blog, por vezes.

    Creio que a poética do encontro pode ser capturada apartir de um olhar ousado. Um olhar além dos vícios e aparências..
    Concordo com Sócrates quando ele diz que a invenção se dá na medida em que nos espantamos com o observado e buscamos o refletir filosófico.Daí surgirá a pertubação e a ousadia do impensável.

    Abraços!

  • Monique

    Agradeço sua presença, sempre leve e afetiva. Quando a escrita toca no sentimento é um encontro feliz.
    Vou apresentar este texto, hoje, 14 hs, no encontro que está havendo na UFPE/CAC. O tema da mesa-redonda é a Poética do Encontro. É uma realização do pessoal ligado à bioandança. Achei que cabia ampliar a divulgação do teto.
    Aparelça sempre.
    abs
    antonio paulo

  • Geovanni Cabral disse:

    Antônio, seu texto nos fazem refletir na leveza dos encontros que a vida nos apresenta. Na poesia e beleza diante da contemplação da natureza e suas formas. É pensar na vida não como a busca da felicidade ditada e posta. Mas na sensibilidade que ela nos faz navegar. As angústias fazem parte desse caminho, alguns tendem a marcarar sua geometria, mas engana-se nos seus traçados. A poesia nos seduzem, nos fazem levitar entre palavras e sentimentos. A vida tem uma arte, uma beleza que poucas pessoas param para perceber. O cotidiano desenfreado nas ilusões do consumo apaga esse instante. O amor mergulha em um rio em tempo de chuva, o afeto entra no mesmo barco. Não podemos deixar a poesia sucumbir no caos. Tudo tem um fio condutor, nada é por acaso. É importante participar dessa dança da invenção e cantarolar suas canções, deixando o corpo fluir em seus movimentos.
    Abraço!!

  • Geovanni

    A vida é um fluir constante. Os bons encontros ajudam a levantar a energia e sacodir fora os desacertos.
    Grato pelos comentários.
    abs
    antonio paulo

  • Gleidson Lins disse:

    Não sei por qual motivo, mas o texto me remeteu a uma das canções que escrevi, junto com meu amigo Saulo Figueiredo, para a nossa banda: Quedas de Outono.

    Nascemos no mesmo abismo, vivemos o mesmo caos
    Olhando todos na praça, ‘zil’ homens, homens-animais.
    Uns passam nos automóveis, acham-se seres imensos
    Seus filhos crescem à sua imagem em futuras vãs criaturas
    E sofrem por isso…

    Olho pro alto e não vejo uma lástima de infinito
    Ao meu lado uma festa explode em segredos
    Onde um bêbado ridículo aos olhos dos lúcidos
    Revela toda a vida em preto em branco…

    Engulo um trago da noite e abraço a madrugada
    Um homem forte e másculo deitado, coberto de flores
    E dores…
    Jamais aceitara sequer uma pétala em quedas de outono

    Façamos da lenha o fogo, um corpo que dança à chuva
    Que as águas lavem os rostos e arrastem as tintas à terra
    Que encharque mais e mais a lama…

  • Paulo Marcelo Mello disse:

    Essas palvras ditas assim me remetem ao lirismo das cações de
    Chico Buarque dos finais dos anos 80 e início dos anos 90, como
    Todo Sentimento ,,,,,,,,Parabéns…

  • Monique disse:

    Espero que o Encontro tenha sido ótimo, tanto quando o texto!

    Boa Noite!
    bjs

  • Monique

    Foi tudo bem.
    abs
    antonio paulo

  • Paulo

    A sensibilidade ajuda muito. Dá mais fôlego.
    abs
    antonio paulo

  • Gleidson

    Tocou na boa lembrança da emoção. É o que fala seu poema.
    abs
    antonio apulo

 

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