A política e o futebol: violência, repressão e alegria

Os anos 1970 foram duros, depois dos assanhamentos das utopias de 1968. O Brasil vivia a época dos governos militares. O golpe de 1964 colocou, no poder, governos que pouco zelaram pela democracia. Foi um sufoco. Não faltaram censura, repressão e discursos nacionalistas. Tudo não se deu por acaso. Houve parte da população que apoiou o endurecimento. O ufanismo compunha o pensamento de muitos ligados ao autoritarismo.

A história deve ser sempre contada. Seu diálogo com a sociedade é permanente. Consultamos jornais, ouvimos relatos, interpretamos situações e assim a narrativa histórica vai sendo construída. É importante não esquecer a crítica e a presença das relações de poder nos atos humanos. Há períodos que assistimos aos seus desfechos ou às suas descontinuidades. Dos anos 1970 minhas lembranças são fortes. Passava dos dezoito.

O futebol se preparava para mais uma Copa. O fracasso de 1966 perturbava, mas havia uma seleção que se montava para ser campeã. João Saldanha, cronista esportivo, organizava e dirigia o escrete. Saldanha era muito respeitado. Sua posição política não coincidia com a do governo existente. Isso era um problema. Ele acabou sendo demitido, perto de acontecer o Mundial. No entanto, Zagalo era o novo treinador e dispunha de um elenco fora de série: Pelé, Clodoaldo, Rivelino, Carlos Alberto, Jair e outros craques significativos.

O Brasil tinha condições para chegar vitorioso. Nas chamadas esquerdas da época, controvérsias rodeavam o sentimento de torcida. Alguns achavam que uma derrota da seleção abalaria o governo militar. A insatisfação deixaria uma clima pesado. O presidente era Médici e procurava irradiar simpatia. Sobravam propagandas otimistas. Outras pessoas não confundiam as coisas. Queriam a vitória. Não achavam que a derrota traria  danos ao poder.

A seleção fez uma Copa  brilhante. Sua atuações deslumbraram. O time estava bem articulado, jogadores motivados e o coletivo funcionando sem intrigas. A última partida  foi ganha com uma goleada em cima da Itália: 4×1. A vibração foi imensa. Os jogos eram vistos na televisão em transmissão direta. Um sucesso festejado pelos meios de comunicação. O governo não se omitiu. Participou das comemorações da conquista e usufruiu no que pode.

Médici não foi o último dos opressores , porém a violência marcou sua passagem. A luta contra os desmantelos autoritários continuaram. A vitória, no Mundial, tornou-se um momento de alegria. Era bom saber que existiam craques como Tostão, Gérson, Paulo César. Os protestos contra a censura e as restrições à liberdade não cessaram. As belas canções de Caetano, Gil, Chico, Vandré eram ouvidas,com atenção, e motivavam os descontentes.

Quem sabe faz a hora, não espera acontecer, ecoa na história com firmeza e permanece uma referência inesquecível. Havia mobilização crescente, para retomar as eleições diretas e desfazer a série de presidentes intolerantes. Os tempo mudaram, com o envolvimento e a coragem de muitos. No próximo 3 de outubro, mais um exercício de cidadania. É preciso senti-la não só nas companhas de grande porte. Talvez, a democracia estivesse mais esperta e segura, se o cotidiano a recebesse sem descuidos, nem arrogâncias.

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