Espiar a história, sentir o mundo, escutar o tempo

 

Os ruídos são muitos. Não há silêncio, só vozes ou buzinas de carros. A televisão ajuda na diversão ou na apatia. Parece que as saídas foram bloqueadas e as armadilhas enchem cada rua. Não sei se vale questionar tudo, cruzar feitiços e acreditar em evangélicos com verdades milionárias e honestidades mascaradas? Eles povoam as mentes mais ingênuas, sem descuidar-se dos interesses. A confusão sai do limite, cria uma bipolaridade arrasadora. Há epidemias, falta de águas, anúncio de celulares coloridos, espetáculos anestesiantes. Faz tempo que não se fala em revolução, mas não faltam guerras e ódios.

As farmácias ganham fortunas e procuram se afirmar com lojas vistosas nas esquinas principais. As tapiocas custam dez reais e o bolo de rolo virou um assunto provinciano.Situação está esquisita. Tudo se globaliza de forma rápida. A desconfiança desfaz o diálogo. No Brasil, há mais presos do que prisões e a política é uma loteria com quadrilhas organizadas. A grana é o feitiço maior. Observem como atuam os juízes, como os delatores imaginam as situações, a pressão da imprensa por notícias novas. Quem é quem? As dificuldades acordam consciências, porém destroem desejos. Uns defendem Moro como se fosse um santo, acham Temer um figura sacrificada. Outros torcem por Lula.

Cultuam o messianismo, misturado com planejamentos especializados E os ressentimentos prosperam, no meio dos santificados pelas manchetes eletrônicas. Bastava firmar a solidariedade e esmagar as máscaras.Quando a política se arrasta promovendo escândalos estamos na rota do apocalipse. O descrédito retira o tapete, os tropeços tornam-se comuns, o cinismo adora o sucesso. Pergunta-se, questiona-se, intimida-se. Os sonhos desenham fantasmas. Não há como acender as reflexões de Hannah Arendt ou rever as utopias do século XIX. Ocupamos espaços estreitos alimentados pelas artimanhas. E os que buscam soluções? Rezam ou ocupam tribunas profanas?

As redes sociais são a síntese do turbilhão, não apenas o desfile de inutilidades.O ânimo cultiva a liquidação de mercadorias, o vazio se distrai, a solidão é eletrônica. As ordens desfeitas, a democracia inexistente, os missionários misturados com o carnaval das cervejas. Vale gritar quando se sente agonia. Não sei quem inventou a história, quem se sentiu onipresente, nem o tamanho da maior mentira. Vivemos no reino das fabricações. Drogas, petróleo, mesas, cafés, pesadelos, academias. Há um vocabulário que muda e intriga. Todos estão ligados no significado das mudanças ou as permanência continuam soberanas? Fico perplexo quando se decreta que somos animais racionais.

Darwin treme com a ciência contemporânea, manipulada pelas grandes corporações. Ela tem preço, não se afasta do capitalismo, derruba e sacode, não foge das violências mais sofisticadas. A história estremece, mas não há como descruzar seus tempos, não esquecer de Homero, Platão, Nietzsche, Freud, Braudel, Foucault e tantos outros. O importante é não se escravizar na objetividade, observar a dança das verdades e as dissonâncias da arte. Cada palavra fixar um significado que morre repentinamente. A mudez pode ser uma sabedoria ou uma insistente ausência das questões mais urgentes. Espie, sinta, escute.

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