Mensalão, política, dúvidas, desmantelos

Ninguém conhece uma sociedade perfeita, sem desmantelos ou desacertos cotidianos. Destaquem-se os grandes centros dos tempos atuais, os governos negociados nos detalhes, as disputas por cada milímetro do poder. Não é novidade que haja manobras e corrupções. Cobra-se uma ética, um comportamento transparente, mas tudo isso se perde nas inquietações sem respostas daqueles que se instalam nos cargos de forma soberana. A política não é, apenas, o jogo complexo dos partidos e das lideranças avulsas em busca de reconhecimento.  Prefiro ampliar a concepção mais comum e caminhar por outras trilhas. As relações sociais, na sua totalidade, são atravessadas pelas tramas do poder. Pedem pactos, limites, renúncias.

As reclamações que existem espalham-se pelo mundo. No Brasil, saímos de um escândalo para outros. Surge uma CPI dantesca, depois o julgamento do famoso mensalão ganha espaço. Talvez, haja alguma coisa escondendo outra. Não sei. A mistura é visível. Basta observar o depoimento dos envolvidos. As vacilações são cobertas com promessas de verdades. Como produzir a rota da coerência é uma pergunta desafiadora. No entanto, as corrupções não pertencem às nações desfavorecidas pela miséria e falta de estrutura. Elas percorrem o mundo, mostram que a política também acena com justiça, porém os cenários de desequilíbrio são frequentes. Não escapam nem os que se afirmam donos de culturas democráticas.

A dimensão das relações de poder transformam hierarquias ou as justificam. Observem como as famílias se constituem, como os empresários aumentam seus impérios, como os ditadores reforçam a violência. Não há o costume da rotatividade, de construir outras experiências. Todos de olhos na sucessão, na garantia de fixar-se nos projetos e desmontar seus adversários. Quando os confrontos maiores dominam o noticiário não significa que o foco deva ser único. O fluir das manipulações, aparentemente pequenas, cria escolas de malabarismos pouco preocupadas com o coletivo. O refazer da prática exige uma pedagogia muito diferente das que temos na sociedade contemporânea. É interessante como predomina o discurso do lucro.

A inteligência é associada à esperteza. Parece que enganar é preciso. O vaivém das interpretações jurídicas deixam os mais leigos tontos. As leis não representam a instituição da autonomia? Não seria possível mudá-las? A confusão geral é armadilha ou mistério? Não existe uma resposta única. Os acusados juram inocência, desconfiam das provas discutidas, as dúvidas minam as expectativas. Portanto, não dá para refletir sobre a política sem  penetrar na complexidade do jogo de interesses.As diferenças instituem a vida social. Crescem em algumas situações, provocam rebeldias e descontroles.

Ninguém percebe sinais de paraíso, mas o silêncio diante das contradições é acomodação. Quem se sustenta nos arredores do poder sabe que a mobilização histórica não sossega. Os grandes julgamentos abalam alicerces. Deslocam sentidos. Não custa analisar o que se passa nos territórios mais próximos. As distâncias ajudam a criar ilusões. Está tudo entrelaçado, tocando-se, incomodando.Perigoso é esquecer que a sociabilidade não é resultado, apenas, do extraordinário. As dúvidas moram no cotidiano das pequenas coisas. Os descuidos sociais transformam os argumentos em retratos do medo, desmancham valores e arquitetam abismos.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>