A política no embalo dos descontroles

Maquiavel deve estar perplexo. Quem sabe, totalmente, inseguro sobre o que escreveu. Sua alma navega pela atmosfera atormentada. Renovou a reflexão da sua época. Mostrou como a política busca fins e não está acompanhada de valores sublimes. O poder atrai e corrompe de forma brutal. Maquiavel viveu, numa época, de transformações importantes para se pensar a construção da modernidade. Observou que os dogmas tradicionais se arrastavam, não temeu anunciar que o egoísmo existe, não é uma fantasia de pecadores. Muita coisa aconteceu, depois da publicação da sua obra. Suas ideias ajudam a compreender o vaivém da sociabilidade. Possui leitores fanáticos, seduz com eficácia.

Maquiavel, talvez, não esperasse que a política dominante andasse tantos caminhos. Ela não fugiu do que ele afirmou, porém seguiu adiante. Afundou-se nas negociações do capitalismo, como uma mercadoria valiosa. Seus compromissos com a verdade são, quase, inexistentes. Ela se move, faz projetos, envolve-se com as crises econômicas, desfaz limites. Basta ler o noticiário. Há quem se surpreenda.Outros se conformam. A desconfiança toma um rumo perigoso, porque produz um vazio, quase, permanente. Atiçando as especulações, os vulcões fervem numa temperatura inesperada, diante de desesperos e esperanças arruinadas. Maquiavel contempla seus discípulos, celebra as agilidades das manobras. O trapézio do circo se balança.

Nos momentos de grandes aflições, teorias aparecem querendo apagar a obscuridade. No entanto, a velocidade das acusações, a insensatez de certas conversas, a ambição pelos cargos nutrem expectativas que se desmancham. A dimensão do passado não se relaciona com escolhas decisivas. O olhar para o futuro prevalece. Para quem cultiva o cinismo, é preciso  mascarar as ambiguidades, acariciar inimigos tradicionais., abandonar amigos de longas datas. Qual é a medida? Qual é o princípio? Qual é a estratégia? Lembrando Gramsci: como estão as correlações de força e quais ruídos da burguesia?

Essa dificuldade de historicizar é que dá náuseas. Remove referências. Tudo se torna descartável. São os que governam que mais favorecem à falta de sinalizações, pois suas atitudes se vestem com sombras, astúcias contínuas. Ficamos sem fôlego. O cotidiano sacode-se com crimes violentos. A política comete sua violência simbólica e destruidora, também, sem admitir descanso. Parece que a democracia persegue ajustes que não consegue obter, porque o mundo dos escorregões se oficializa na compra e venda do mínimo que ajude a expandir o território do poder dominante. As instituições ficam desacreditadas. A cultura nos ensina, contudo, que o lugar da reinvenção não se foi.

Deslocam-se temores e esperança. Não se divorciam. O humor se instabiliza. Os julgamentos articulam-se preparando golpes. A memória nos convoca para recordar o que deveria ser trivial. As perguntas são muitas: por que os partidos ganham rostos diferentes quando se aproximam do poder ou como se reconstroem relações destroçadas em troca de posições destacadas nas relações de força? Quem compreende o significado da lealdade ou quem ultrapassa o que, antes, representava dignidade? Não estamos vivendo o apocalipse, mas as instituições se desencontram, não animam a coletividade, mas facilitam a ação de grupos amarrados no desejo da grana.

PS: Os dias das mudanças dos textos: sábado, domingo, terça e quinta.

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5 Comments »

 
  • Rui Rodrigues disse:

    Uma sociedade pode ser controlada durante algum tempo. Duas também, e até mais sob a mesma filosofia ou semelhante. A humanidade não. É um bicho muito maior e mais complicado. A diversidade de idiossincrasias sempre oporá uns de um lado e outros do outro, por mais que todos os que controlam tenham lido Niccoló Maquiavel (recomento a leitura de “O Príncipe” com as anotações à margem por Napoleão)

    O mundo comunista já teve cerca de 40 nações no mundo. Na medida em que este sistema se demonstram incompleto (ou mal dirigido), começaram estas sociedades a cair para o lado do capitalismo, mas vê-se agora que, não padecendo dos mesmos males, padece de outros, se que se defina quais são piores.

    Indignadas, as sociedades correm para a democracia Participativa qual barco adernando que joga a tripulação de um lado para o outro.

    Os países nórdicos, a Suíça e a Islândia já adotaram a Democracia participativa. Os políticos lá mudaram porque já não tem o poder nem podem apitar o jogo.

    Abraços

    http://conscienciademocrata.no.comunidades.net/index.php?pagina=1290573303

  • Rui Rodrigues disse:

    Post corrigido- por favor considerar este como válido

    Uma sociedade pode ser controlada durante algum tempo. Duas também, e até mais sob a mesma filosofia ou semelhante. A humanidade não. É um bicho muito maior e mais complicado. A diversidade de idiossincrasias sempre oporá uns de um lado e outros do outro, por mais que todos os que as controlam tenham lido Niccoló Maquiavel (recomento a leitura de “O Príncipe” com as anotações à margem por Napoleão)

    O mundo comunista já teve cerca de 40 nações no mundo. Na medida em que este sistema se demonstrou incompleto (ou mal dirigido), começaram estas sociedades a cair para o lado do capitalismo, mas vê-se agora que, não padecendo este dos mesmos males, padece de outros, sem que se possa definir quais são piores.

    Indignadas, as sociedades correm para a democracia Participativa qual barco adernando que joga a tripulação de um lado para o outro.

    Os países nórdicos, a Suíça e a Islândia já adotaram a Democracia participativa. Os políticos lá mudaram porque já não tem o poder nem podem apitar o jogo.

    Abraços
    Rui Rodrigues

    http://conscienciademocrata.no.comunidades.net/index.php?pagina=1290573303

  • Rui

    Há uma diversidade grande de caminhos políticos, devido à complexidade de viver e conviver. Suas observações mostram bem essa multiplicidade. Daí, as lutas e os disfarces. Busca-se a democracia, mas há quem prefira o totalitarismo e provoca violência. Apesar de tudo, é bom pensar nas saídas e nas possibilidades de dialogar.
    abs
    antonio paulo

  • Jonas dos Santos disse:

    “Para quem cultiva o cinismo, é preciso mascarar as ambiguidades, acariciar inimigos tradicionais., abandonar amigos de longas datas.”

    Parece que o senhor estava prevendo a aliança do Coronel Dudu com Jarbas.

    A política me fascina e desencanta ao mesmo tempo.

  • Jonas
    A política está muito perturbada pela corrida em busca de cargos e privilégios. Isso nos deixa desconfiados.
    abs
    antonio

 

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