A política: vacilações, controvérsias, poderes

As relações de poder nunca foram lineares. Elas dançam num vaivém admirável. Mesmo quando os totalitarismos dominam, há quem reclame e crie condições de rebeldia. As opressões não são definitivas, nem contam com o apoio homogêneo. Minorias se insurgem e a política ganha sinuosidades. Por isso, os sinais de lutas encontram-se em todas as épocas. Recebem participações variadas, com estratégia simples ou de complexidade exemplar. As polêmicas leves visitam páginas de jornais, alimentam discursos, mas as guerras ocupam outros espaços, com violência desmedida. É a construção da história, cheia de curvas e comportamentos inesperados. Tão desafiante com a obra de M.Escher, artista holandês do século XX.

Dilma foi eleita. Sua companha teve momentos de tensão. O tempo passa e apaga muita coisa. Lembrem-se que as religiões se pronunciaram, houve ataques agressivos e os meios de comunicação se dividiram nas suas escolhas. A internet povoou-se de boatos. A corda esticou-se. Hoje, Dilma recebe aprovação de boa parte dos cidadãos e governa com seu estilo, muito diferente do seu antecessor. Não se pode negar que o caminho tem outros atropelos, no entanto a vida segue e o Brasil precisa de muita energia para superar suas contradições.

Elegeram-se também deputados e senadores. A multiplicidade é atordoante. Quando menos se espera, declarações abalam os mais sossegados. Preconceitos reaparecem, memórias são sacudidas e reflexões animam discordâncias e modos de pensar. Tiririca é, sempre, alvo de comentários. Sua votação foi extraordinária e incomodou seus adversários. Dizem que desafiou o jogo do poder, pois o candidato não possui a mínima possibilidade de se infiltrar nos projetos mais coerentes. A política não convive com quietudes. Vejam como Bolsonaro entrou no fogo cerrado, depois de soltar seu repertório de descontroles.

O mundo se agita, em todos os sentidos. Há quebras, tentativas de consertos, mas a tão proclamada transparência, ainda, é um sonho. As relações de poder não se restringem às tribunas de Brasília ou aos planejamentos da ONU. A vida cotidiana não existe sem controvérsias, desde as discordâncias de Caim e Abel. As instituições permanecem, porque fabricam regras e ordens. Porém, elas sofrem ataques e vacilam. Uma olhada, na situação das famílias e das suas tradições, traz dúvidas e gera instabilidades. A grande política tem prioridade nos noticiários. Desperta a atenção, mas  o que se passa nas praças, nas ruas, nos botecos, nas casas de show, nas areias das praias não merece cuidado? Tudo isso é insignificante?

Há torres monumentais encantando os afortunados e pessoas instaladas embaixo de viadutos. Se existem as relações dos mais poderosos, costurando privilégios e acumulando forças de mando, existem outras disputas, muitas vezes, subterrâneas e quase invisíveis. Administrar as diferenças deixa desconfortos. Mudanças políticas,  profundas, necessitam de mobililizações abrangentes. Daí, os entraves que perseguem a tão citada democracia. Os rebeldes líbios prometem fazer transformações, respeitando direitos e sem interesses tribalistas. No entanto, Kadafi resiste, driblando o isolamento. Portanto, traçar mapas de liberdades é, sempre, um risco. Há quem simule e esconda censuras. A pedagogia do poder hegemônico está atenta aos detalhes e não perdoa.

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6 Comments »

 
  • Monique disse:

    O cotidiano se apresenta num jogo de “mostra-se/esconde-se”…e o que aparece são as situações mais formidáveis para manter o “controle”..
    As disparidades são montes pesados demais de se mover, e assim acabam ficando de lado..
    As relações de poder armam jogadas audaciosas de acontecimentos.Umas notícias camuflam outras.O Tiririca agora é a bola da vez, como se só houvesse ele de parlamentar.Se esquece de ver as realidades dos outros.Tiririca não é o único equívoco do plenário..porém,é mais confortável que as preocupações se resumam à ele.

  • Kbção disse:

    Caros, lendo-os, fico com a impressão de que o nobre deputado Francisco Everardo Oliveira Silva (Tiririca) caiu do céu no Congresso Nacional. Ora, o problema não está nele, e sim na falta de educação política de quem o colocou por ali. Não seria o tão santificado povo, aquela entidade mística infalível (“vox populi, vox dei”) o culpado? Esse mesmo não reelege indefinadamente sarneys, jáderes, gedéis, malufs, inocêncios…O problema é que populistas, à esquerda e à direita, costumam incensá-lo, em troca de votos e manutenção do poder, jogando-lhe, vez em quando, algumas migalhas do que sobra do banquete (vide Bolsa-família), no intuito de anestesiá-lo e ele, presa fácil, costuma calar-se quando lhes possibilitam comprar mais quinquilharias. Antônio, nenhuma revolução foi feita pelo povo e sim por autoproclamados procuradores deste. O povo não tem agenda. A genda do povo é a próxima refeição. Já grupos de pressão, na ânsia de tomar o poder (leia-se: impor sua visão de mundo goela abaixo dos demais) e ocupar o aparelho estatal (leia-se: verbas e verbas e mais verbas públicas) é que se movimentam, e reverberam, e fazem barulho.

    Abraço

  • Kbção

    Com certeza, a política é campo de luta e complexidade. Nada cai do céu. O populismo funciona e a manipulação é forte. As resistências, muitas vezes, se diluem. É uma pena, mas fechar as portas é pular no abismo. Vamos lá que a história não é só o previsível.Grato.
    abs
    antonio paulo

  • Monique

    A questão é ampla e o voto tem muito o peso de uma mercadoria. Tiririca é um símbolo. O problema da simulação é constante. Jogam com sutileza e se mantêm no poder. Faltam crítica e coragem, no geral. As armadilhas, que afundam a cidadania, continuam derrubando muita gente. A política perde a grandeza de uma ética solídária
    Grato pelos comentários.
    abs
    antonio paulo

  • Vítor Jó disse:

    A confusão é tanta, que às vezes cismo cá comigo um recomeço lá ainda nas capitanias hereditárias… Voltar no tempo e avisar aos donatários, ao rei Dom João III ( se não me engano) e dizer: isso vai dar merda.
    Bem sei que eles não teriam pretensão de modificar nada, provavelmente, mas é que adoro o gostinho de falar, doravante uma bancarrota, a máxima dos chatos: eu sabia! eu avisei.

    Texto bastante salutar. Parabéns, professor.

  • Vítor

    A história não e mesmo linear. Ela tem ritmos de idas e vindas. Um balanço que incomoda e agrada. É difícil enquadá-la. Daí, as inquietudes especiais que nos cercam.
    abraços
    antonio paulo

 

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