A pressa das drogas e os incômodos de Freud

Quem não busca a felicidade ou momentos de sossego? Freud desconfiava do equilíbrio permanente. Sempre falta alguma coisa, o desejo não deixa de movimentar-se. São assuntos presentes nos papos mais comuns. Mesmo na aceleração do mundo do trabalho o contato com essas ideias nos chega. As propagandas exploram bastante o poder de alimentar prazeres contínuos. Criam-se ilusões e a vida segue. Muita coisa fica guardada, esperando o instante de detonar. Não estamos livres do acaso, nem da surpresa. Portanto, por mais que a agenda esteja organizada, as novidades mostram suas faces, às vezes trágicas. O controle está em toda parte, mas os cortes e as rupturas não se afastam das ruas e dos planejamentos.

Quando abrimos os jornais aparecem crimes nunca imaginados. Sequestro-relâmpago em regiões de segurança máxima, assaltos em delegacias de polícia, assassinatos em universidades. Enfim, o mundo parece se desmanchar em fragmentos de horror, apesar de existir o outro lado que festeja a euforia das boas compras e dos encontros descontraídos.  Há as favelas, cercadas de miséria, e as chamadas ilhas de lazer, onde a grana não se acanha de exibir ambições. Ninguém, com certa lucidez, imagina que a sociedade é de paz e generosidade. As relações sociais são construídas por uma mistura grande de contratempos. Tropeçamos, porém desfazemos sufocos, celebramos alegrias, fortalecemos ânimos. A solidão entra no universo do social. Possui seus ensinamentos, ajuda a compreender os limites dos nossos voos, pode deprimir e isolar. Outros sentimentos ou condições do ser não desconhecem ambiguidades.

 Por isso, os abalos no humor acontecem, os pesadelos assustam e a violência não se intimida. Inventamos proteções, blindamos carros, colocamos câmaras nas edificações, tomamos Lexotan para diluir as ansiedades, porém a instabilidade apronta.  O coração é vasto, mas vulnerável. Cabem, nele, amarguras e esperanças que os bons romances descrevem com maestria. Quem leu Manuel Scorza, Graciliano Ramos, Victor Hugo, Mia Couto,  José Luiz Peixoto sabe bem disso. A ficção tem muitos encontros amorosos com o real. As drogas fazem também parte desse mundo. Em cada cultura se instituíram estabelecendo costumes, destruindo sociabilidades, festejando comunhões. Na contemporaneidade, não seria diferente. As sociedades  precisam lidar com a suas assombrações e suas vitórias. Escolhem sem reflexão e com preguiça.

No mundo das máquinas e das técnicas os rituais ganham composições singulares. Não estamos nos palácios de César ou assistindo às primeiras tragédias de Ésquilo. A arquitetura é outra, a sensibilidade requer pedagogias mais complexas. O neonarcisismo acende o individualismo, corrompe disciplinas e corrompe sentimentos de gratidão. Necessitamos de  suportes culturais que se entreteçam com a pressa dos nossos negócios: fast-food, motéis, shopping centers, leituras dinâmicas. E as drogas não acompanham as astúcias do tempo? Elas recebem nomes e significados que se vestem com disfarces. Bebe-se muito, para justificar alegrias ou desinibições. A bebida já existia, tem uma longa trajetória. A invenção não se intimida. Hoje, o crack se dissemina, sintonizado com a ruína das subjetividades. Destrói no compasso incomensurável, já forjando o sucessor, o oxi. Freud, talvez, redefinisse sua teoria, agora, assustado com a pulsão de morte e as cores do seu divã.

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8 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    Antonio, muito bom ter, tão perto, pensamentos, reflexões e “astúcias que nos ajudam no caminhar”, mesmo quando “as luzes das incertezas assustam”.
    É uma dose diária de energético que nos situa “no território da emoção e do diálogo, marcado pela transcendência e pela busca de não cair na mesmice”.
    Lendo os seus últimos textos, lembrei do poeta maior (Fernando Pessoa) quando diz: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”.
    Obrigada, amigo, por nos desacomodar e nos encorajar, com lucidez e arte, a trocar de roupa; a fazer outras trilhas; a fugir “das cartografias do concreto” e, sem abandonar a crítica,“ir além do que se mostra”, sem medo de se deparar com as “travessuras da vida”.
    Bom dizer para nós mesmos, que apesar das “misérias que habitam nas esquinas”, “a moradia humana desenha portas e janelas sempre abertas.”(…) “É sinal de que o sonho não desiste”!!!
    Ainda que sem o “equilíbrio permanente” a pulsão de vida atravessa a pulsão de morte…
    !!!
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    Reflexões sensíveis alimentam os sonhos. Sem sair do lugar comum, a vida fica muito amarga. Temos que buscar muitas acrobacias, para viajar por outros mares, pois o mundo continua muito atravessado por desencontros.
    bjs
    antonio paulo

  • Monique disse:

    As inquietudes do mundo moderno e seus inventos montam e desmontam os seus criadores…
    As novas tecnologias criam tanto soluções, quanto ainda mais problemas.Assim surgem as drogas da modernidade, todas filhas dos excessos.
    Os momentos que deveriam ser direcionados para calma e quietude são tomados pelos fármacos.O cansaço do corpo e da alma são desproporcionalmente dopados.
    Por mais arredio e complexo que o cotidiano se mostre é preciso estar atento para as atitudes que valem a pena ser tomadas diante da realidade.Fugir é se acovardar e as químicas não estão socorrem a alma.

    abs,Antonio!

  • Monique

    Gostei das observações. Temos dificuldades em curtir o sossego. Fica , quase impossível, refletir e contemplar.
    abs
    antonio paulo

  • Gleidson Lins disse:

    Lendo o texto, observando a dualidade nele contida, e aproveitando a lembrança do formidável escritor e biólogo moçambicano, Mia Couto, gostaria de corroborar uma de suas ideias: errar é biológico. Ele afirma que “é o erro gera mutação, e a mutação é a adaptação que necessitamos para continuar vivos”. Os erros da sociedade levam a mudanças, que levam a dicotomia, à divisão em comportamentos tão opostos de bem e mal.

  • Gleidson

    O erro pode trazer sabedorias. É preciso estar atento, para tirar lições dos tropeços.
    abs
    antonio paulo

  • Paulo Marcelo Mello disse:

    Hoje pelo menos ainda temos uma cachoeira, algumas praias desertas
    onde ainda podemos sair deste círculo vicioso das cidades .
    E no futuro como será?

  • Paulo

    Hpa uma falta de sensibidade que cresce. Teremos muito lixo para jogar fora. As cidades estão ficando uma prisão.
    abs
    antonio paulo

 

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