A queda e a redenção, o sonho e a permanência

A lembrança de que algo foi perdido acompanha o percurso da história. As sociedades insistem na existência de paraísos, de lugares onde a harmonia predomina e os encontros promovem alegria. Por isso, as nostalgias não deixam de ter vez, mesmo com a velocidade das conquistas tecnológicas. Houve uma queda e se procura uma redenção? É uma pergunta que toca e inquieta. Não seria um tema religioso? A modernidade não trouxe a secularização e incentivou posições críticas? Estamos esquecidos das reflexões de Descartes, apesar de seus medos do poder da Igreja Católica?

A redenção tem espaço nos debates religiosos. Porém, não existe na política muita coisa que lembra salvação ou vontade de mudar os descompassos sociais? Como analisar as utopias e as estratégias revolucionárias, sem pensar na energia do sonho e da insatisfação? O profano se expande, quando há deslocamentos de sentimentos, antes, atrelados a anseios de eternidade. Não se podem negar as mudanças. Consultem as divagações dos iluministas ou as vaidades científicas dos positivistas. Elas não existem soltas, nem tampouco dispensam permanências. Muitas vezes, as palavras buscam  significados que a complexidade dos desejos não elucida.

A sensação de que algo se perdeu não é fantasia despropositada. A vida corre nas veredas de desencontros e tentativas de redefinir os desequilíbrios. Os mistérios não desaparecem, pois a exatidão é um artifício. A incompletude não se afasta do mundo. Ela não é, apenas, a fotografia das passagens da cultura Ocidental. Os muçulmanos lutam para afirmar suas crenças e se chocam, às vezes, com seus adversários de maneira violenta. Isso não é uma novidade histórica. Muitas guerras se sucedem em nome de redenções. Quem não conhece as famosas cruzadas medievais? Os discursos dos líderes, ditos carismáticos, não carregam misticismos e sacodem inconscientes adormecidos?

As respostas precisam ser dadas. A imaginação retoma sua força, pois não há como representar o passado como realmente aconteceu. O que foi vivido não está morto, jogado no lixão dos descartáveis. O tempo não permite inércias e exige que as conversas desafiem as diferenças. Passado e presente possuem ligações fundamentais? Como movimentar a vida sem a memória dos instantes que nos constituíram? José Saramago começou a escrever na chamada maturidade. Uma marca da sua formação de grande romancista que não nega toda uma trajetória anterior. As relações se entrelaçam, nós é que nos distraímos com as aventuras e confundimos as afetividades definidoras.Portanto, embarcar nos feitiços dos progressos é anular o poder da imaginação e desconsiderar buscas que atravessam séculos.

O esclarecimento definitivo das muitas interrogações que nos cercam não parece próximo. Flutuamos. A moradia humana desenha portas e janelas sempre abertas. Falhamos, inventamos desacertos, fabricamos conhecimentos. Nem sempre o sossego é companhia. Há dias de sorrisos largos e outros de melancolias desestimulantes. Dizem que a luz do fim do túnel não se extingue. É sinal de que sonho não desiste. Convivemos com mortes anunciadas e corrupções cínicas. As misérias habitam em esquinas ou em bancos de praças. A redenção não é obra solitária, mas move a solidão. A perda mostra a importância de não desviar os olhos do coletivo.

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6 Comments »

 
  • Vítor Jó disse:

    Sinto que a incompletude é inerente ao ser humano. Há sempre uma lacuna e já desbravamos o mundo para tentar preenchê-la – ainda sem êxito( quiçá possa existir mesmo um!).
    O que me chateia mesmo são essas válvulas de escape contemporâneas. No fim não se consegue resolver nada porque se esquece de que se tinha algo a resolver.
    Sigamos – mas sem resignação!

  • Gleidson Lins disse:

    Os seres humanos estão sempre buscando algo que não podem alcançar, mas continuam buscando. Esse paradoxo nos move adiante. Olhemos em volta: vê-se claramente rostos de esperança, cada um buscando o seu “paraíso”, alguns aqui, outros em lugares etéreos religiosamente prometidos (há produto melhor para se vender do que esperança?). Os canais de tv (religiosos ou não) há muito aprenderam isso. Concordo com Vítor Jó quando ele diz que a incompletude é inerente ao ser humano.
    E o mundo gira.

  • Gleidson

    Inventamos a cultura, porque muita coisa nos falta. Isso é incompletude que caminha ao nosso lado. Mas não deixemos de viver. Os desejos estão sempre presente, por isso os sonho aparecem.
    abraços

  • Vitor

    Pois é. Vivemos com a falta e a busca da transcendência. O mundo é vasto.
    abs
    antonio paulo

  • ladjane helena disse:

    o conhecimento é bom, mas às vezes atrapalha a visão.

  • Ladjane

    Acumular conhecimento, sem crítica, não adianta. O importante é mexer com as dúvidas, não ser conformista.
    abs
    antonio paulo

 

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