A rua é o mundo, o mundo é a vida

Aritana é vendendor de amendoins. Quase toda semana, passa, pela rua, onde moro, com sua ágil carrocinha. É animado e barulhento. Usa músicas de duplo sentido, chamando a atenção da plateia. Faz elogios ao seu produto, com bom humor, e a ajuda de uma fita gravada, na sua caixa de som. Diz que é descendente de índios. Zela pela sua singularidade. Mostra-se desinibido. A rua é, também, sua casa, o lugar de construir sua metafísica.

As grandes cidades vivem interligadas e se alimentam do trabalho cotidiano de pessoas como Aritana. Muitos dos seus habitantes não têm ambiente fixo, para alargar o seu ativo estar-no-mundo. Seguem suas aventuras, nem se lembram que existem propriedades e riquezas. Desconhecem que elas sejam símbolos de felicidade. Não ouviram falar em Ulisses, o grego astucioso, mas navegam, no asfalto, com seus pés-marinheiros. Narram suas idas e vindas, sem cerimônias. Olham os detalhes de cada esquina. Não se acham perdidos, conversam sobre suas insatisfações, com heroismo.

Gostam das praças, do seus bancos, do movimento dos namorados. Misturam-se. Aprendem, como sobreviver, sem construir muros de lamentação. O perigo os ameaça, o sossego é a inquietude disfarçada. Existem milhares de moradores de ruas. Uma circulada, nas madrugadas, denuncia os ruídos dos agasalhos esfarrapados, banhos acidentais, esperas pela luz da manhã e  receios, com a surpresa das chuvas.

As populações cresceram e os espaços foram diminuindo. O capitalismo valoriza cada lote de terra, como um poço de petróleo. A especulação é intensa. Desafia, fere os mais pobres, seduz os vaidosos. Os imigrantes sofrem, sentem-se distantes de seus hábitos. Enfrentam obstáculos, como se estivessem metidos em abismos anônimos. Cada época com os seus desencontros. Repartir bens materiais é o discurso dos ornamentos da política pública. As transparências, das suas metas, parecem com espelhos de vitrines decadentes. Prometem-se cores que se desbotam nas gavetas dos armários governamentais. Os desconfortos se aprofundam, porque o monopólio é esperto, concentra interesses.

A convivência renova tensões, desvia-se de rebeldias, cria estrangeiros de identidades frágeis e fugidias. É esquisito como a sociabilidade vacila, e as confusões esvaziam a vontade de consolidar o coletivo. Um mundo, sem pertencimentos, é vazio, como uma garrafa de refrigerante destruída  pela sede da fome. Mira-se o ídolo, como se reza pelo santo. Os milagres são escassos e a fortuna não costuma ser parceira das socializações. Por isso, as crenças se desmontam e  o jeito é inventar a cartografia do sentimento, com o que resta da respiração lenta do final do dia.

Em alguns muros, estão escritas palavras. Podem-se ser soletradas reivindicações mínimas ou ofertas insinuantes de lojas comerciais. O mundo é a vida, camarada. Não dá para descrevê-lo com pouca síntese. Suas imagens nunca adormecem e seus tempos se procuram, como bolas de encher soltas nas festas de criança. Contar as histórias garante que se  configurem esperanças. Nada consegue desfazer os diálogos dos esquecimentos com as lembranças. Porém, o historiador não pode ocupar-se dos acontecimentos tal como eles aconteceram na realidade, senão, simplesmente, tal como os supõe ter ocorrido (Nietzsche).

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