A saída da greve, o individualismo, o fluir da lutas

A greve ganhou espaços inesperados. Mostrou o desgoverno. Contou com apoios e trouxe polêmicas que estavam adormecidas. As negociações não conseguiram balançar a intransigência política dos donos do poder. Muito tempo gasto, manifestações, assembleias, artigos na imprensa, mas parece que as prioridades são bem outras. Ficamos perplexos, porém a indiferença tem sido uma marca que se repete. Educação e saúde sofrem marginalizações incessantes. Muitos discursos, projetos, lamentações que não convencem. O marasmo é grande nas iniciativas governamentais. Tudo se resume aos avanços tecnológicos? Refletir não merece atenção na perspectiva de modificar um cotidiano tão repleto de contradições? Passamos meses, sem respostas, num desgaste emocional violento.

Os debates sobre as travessias da greve continuarão. É difícil querer silêncios e homogeneidades. Não foi fácil sair de um movimento que mobilizou tanta energia. Muita gente olha a política de forma mesquinha. Pensa nas vitórias consagradoras, não avaliam o quanto a convivência aproxima, cria experiências, (des)faz companheirismos. Subestimar princípios e achar que tudo é um jogo sem consequências nas vidas pessoais não ajudam nas mudanças. Há dissidências, raivas, desarmonias, denúncias. Não estamos numa sociedade totalitária. Afastar-se da mesmice ensina, fortalece possibilidades de seguir adiante.

A saída da greve foi uma decisão da maioria. Restaram insatisfações que não podem ser desconsideradas. Quebraram-se pactos, alguns frustram-se e aumentam suas desconfianças. Os riscos avolumam-se, sobretudo, porque as ações dos que governam demonstram uma apatia persistente. Quem retorna ao trabalho observa, mais uma vez, os desacertos e a falta de compromisso com o coletivo. Se a greve, no início, move as esperanças, no seu final desfia e atormenta. As reivindicações não morreram, no entanto o exercício da democracia é limitado. A sociedade é capitalista, com promessas salientes de inclusão social. Como cumpri-las se os objetivos de concentar riquezas não se foram e a corrupção não cede?

Pesquisas recentes apontam o Brasil como um consumidor destacado de drogas. Não só o Brasil. Há uma globalização que desmonta a saúde pública e defende, muitas vezes, a repressão para redefinir as práticas sociais. O desprezo por um saber crítico, a exaltação do discurso da produtividade, a transformação dos centros acadêmicos em lugares de privilégios aumentam o descontrole na avaliação dos valores que aprofundariam a existência de outra história. Enquanto os critérios quantitativos dominarem, a sociedade não respirará a ampliação da autonomia. Há inquietações, porém as formas de inibi-las prosseguem empurrando as mudanças para o fundo poço.

A lógica que vigora é da corrida pelo útil que significa índices de destaque internacional no crescimento econômico. Os governos celebram os números do bem estar preocupados com a venda de carros e a inauguração de shoppings,  num cotidiano que mergulha na superficialidade. As greves surgem e surgirão dentro desse quadro que só reforça o individualismo. O pior é que existem contaminações. Muitos levam para luta política estratégias que exaltam o sucesso. É necessário ver o lixo que não está só no meio da rua. Ele se infiltra na cabeça de quem se contagia com poder ou de quem espia a vida como espetáculo distante.

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6 Comments »

 
  • Natália Barros disse:

    Antonio Paulo, o mundo da política e da luta sindical é árido demais. Muitas pessoas não acreditam/aceitam que podemos construir a vida, inclusive no âmbito do trabalho, de maneira mais leve, com alegria e esperança. Presenciei muita amargura, desenganos e rancores nessa greve. Acredito que o enorme desafio dos jovens é manter a esperança nas possibilidades de construção de novas relações dentro da Universidade. Mais uma vez, obrigada por sua companhia e seu exemplo na minha vida. Sempre aprendo muito com você, meu querido amigo.

  • Wiliane Karla Ventura Nogueira disse:

    Perfeito!

  • Wiliane

    Grato.
    abs
    antonio

  • Natália

    Fico emocionado com suas palavras. Mas os educadores estão sempre procurando também aprender. Há um movimento. Educador que acha que sabe tudo, que conhece os caminhos sem vacilação, talvez esteja na superfície. É importante buscar, criar força, tolerar, mas não deixar de ter referências. O mundo é vasto, já dizia o poeta. E nós temos compromissos que não são, apenas, objetivos e quantitativos. Nada mais agregador do que conviver e não esquecer a solidariedade. Isso não significa renunciar às diferenças , nem exaltar a apatia. A multiplicidade nos ajuda a pensar o mundo e compreender suas incompletudes. As formas e as cores se ampliam e podemos recuperar os fôlegos. Assim, vamos. Não podemos nos livrar dos escorregões. Fazem parte das ousadias e das inquietudes.
    bjs
    antonio paulo
    antonio paulo

  • Taiguara disse:

    Sim, sei dos desgastes de uma greve e tenho ideia das dissidências em um corpo tão grande. Acontece que o quantidade de estudantes simpáticos aos grevistas era maior do que a mídia fazia parecer. Esses, pelo que vejo, converso e sinto, vêem o fim da greve nestas condições como um ato de pouco respeito.

  • Taiguara

    Com certeza, há muitas avaliações negativas. A política tem contrapontos. Seria bom que houvesse abertura, negociação. Os estudante foram importantes. O buraco é grande. Mas não pense que faltou respeito, embora sinta que a frustração existe e traz danos para a luta.
    abs
    antonio paulo

 

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