Margareth T., a salvação,o cotidiano, as histórias

Ninguém se impressiona com as velocidades do mundo ou das invenções científicas. Faz-se o registro, mas nada de alardes extraordinários. Aprendemos a conviver com o descartável e a caverna do tempo se torna um espelho de múltiplas formas. Portanto, não vamos criar muros de lamentações. Cada um procura adaptar-se aos ritmos inusitados, dentro de um conformismo previsível. Há certo cansaço, uma mesmice que parece deslumbrante para os mais preguiçosos. Quebram-se encantos, porém a imaginação está esperta e agita sonhos. Não dá para adormecer. O sono é inquieto, parceiro do despertador.

Costuma-se citar o cotidiano. Será que vivemos num calendário de um único e gigante dia? Existem: a história do cotidiano, as tarefas do cotidiano, a companheira do cotidiano, a novela do cotidiano. Lembrando a música de Chico, a repetição toca sino sem parar. Talvez, uma enorme contradição: há novidades, despidas de força criativa? Uma pergunta um tanta suspeita, mas que merece atenção. Muitos pensadores se dedicam a criticar a falta de ousadia dos artistas contemporâneos. Ficam nostálgicos, exaltando Bach, Chopin, Baudelaire, Picasso, Debussy, Coubert … Gostam de jogar o resto na lata do lixo. Condenam  a arte massificada, anunciam o fim da qualidade. Radicalizam. Basta ler alguns textos de Adorno, Castoriadis…

Um debate que traz volumosa ansiedade acadêmica. Esse império do cotidiano expressa a prevalência do fetiche da mercadoria com máscaras astuciosas? Não faltam críticas ao capitalismo. A exploração continua firme, sem dúvida, e o desequilíbrio aumenta com a acelerada concentração de riqueza. Tudo se sacode numa diversidade incrível. Há quem lamente a morte de Margareth, quem se apaixone pelo liberalismo sem censura. Não tenho boas recordações da Dama de Ferro, pois me incomodam os que passam pela vida sem expressar pingos de solidariedade.

O cotidiano está nos jornais, com crimes assustadores, loucuras atômicas, desamparos afetivos crônicos. Não é exagero ressaltar as permanências e desconfiar das feitiçarias eletrônicas. Não sou pessimista quando observo que não diminuiu o número de refugiados e as mentiras alimentam cinismos políticos. Aquela ideia de progresso nunca me animou. Há quantidades que sustentam o consumo, mas atiçam o desejo de maneira perversa. Por isso, nos sentimos presos no cotidiano, mesmo que seja possível reconstruir espaços, fermentar resistências. Como pensar a história sem a rebeldia e a cultura fechada em si mesma?

Contudo, não custa investigar o significado das palavras. Há romancistas e poetas que buscam fugir do comum. Como nos esquecer de Manoel de Barros, Pamuk, Mia Couto, Paul Auster, García Márquez? O absoluto não está soberano, ocupando todos os cantos. Há muitas portas abertas e janelas escancaradas beijando as luzes mágica. Se a sociedade coisifica-se e se enche de drogas para olvidar o desgosto, podemos fabricar alternativas, se desfazer de exatidões medíocres. Recordar que a verdade é curva faz bem as batidas do coração. A duração do cotidiano tem  limites. Estamos no meio da história ou já preparando o juízo final? Quem sabe sobre o futuro. As crenças inundam as mentes, mas o ruído rasga a monotonia.O verbo despertar sobrevive.

 

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>