A saudade não se esgota na distância

Os sentimentos (des)montam. Talvez, a vida valha por esses acasos. Consumir as exatidões, mergulhar nas águas limpas e despoluídas exercem atrações. Mas quando tudo está muito acertado, algo anuncia um certo vazio. Quem adivinha o que vem no futuro mais próximo? Portanto, o excesso de controle é um artifício. Nem sempre, sentimos prazer em adotá-lo. O mundo não esquece as acrobacias do bem e do mal. Viver sem comparações, desmancha referências e nos joga em espaços desérticos.

Tudo, que não tem medida, inquieta. Construímos a cultura, sem nos livrar das certezas, porém isso não basta para firmar hábitos. Nas lacunas,  a vida se forma e se traça. A monotonia do mínimo tem momentos agradáveis. Somos, no entanto, animais que escolhem, sem programação fixa. O inconsciente não é lugar de paraísos.Seus toques são profundos. Suas geometrias desafiam arquiteturas silenciosas. Portanto, o presente pode nos lembrar cenas indesejáveis e nos colocar em situações adversas, dependendo das leituras que retomamos do passado.

A saudade é sentimento forte e nunca ausente. Ela se entrelaça com as tessituras da vida, nos detalhes e bordados mais inventivos. Não é só a perda de um grande amor que provoca amarguras. A falta está nos desejos do corpo, nas ficções dos sonhos. O real também se redefine, não é mesmo de que nos legou Platão ou Tomás de Aquino. Pensem nas pinturas impressionistas  de Monet ou nos romances de García Márquez. Pequenos exemplos ? Se elegemos deuses, para cumprirem tarefas impossíveis para nós, desfiamos prazeres, fragilizando  tristezas persistentes.

As imagens das saudades são cotidianas. Possuem moradias esquisitas. Apagá-las de nossas vidas é uma impossibilidade. Mas a saudades não é, apenas, a morte ou o desmantelo. Há saudades que inspiram. O tormento da distância transforma, agiliza certa ações e evita desconfortos. Quando ouço The Beatles a nostalgia tem seu charme e seu encanto. O tempo passou e deixou registros. Quando os registros retornam e nos afagam, lamentar e criar hierarquias é desperdiçar encontros. A distância física não é, sempre, sinal de desamparo, mas abertura do vasto jogo da memória. As partidas são passagens e se deslocam no reino das fantasias.

Ritmar sentimentos, agregá-los aos instantes vividos requer sabedorias. Onde tudo é intratável, onde tudo é hermético e evasivo, não se pode fazer nada senão observar (Paul Auster). Diante das perdas, resta o luto, sem estabelecer metros ou pesos. A dimensão da dor diz muito da saudade. Não há uma objetividade inviolável. Há coisas que ficaram longe, numa esquina escura de noite confusa, que marcam o coração. Seus traços desorientam.Há proximidades que maltratam de forma fugaz, sem abismos.

A diversidade das circunstâncias merece observação. A paciência dialoga com o afeto e, às vezes, esclarece trajetórias de caminhos, antes, invisíveis. A sociedade contemporânea tropeça na velocidade, pois estipula quantidades como bens supremos. Tritura as contemplações e apressa qualquer olhar mais sossegado. Pune a saudade que se estica. Embriaga-se nas drogas, justificando sentidos e garantindo espertezas. As medidas conversam com as astúcias de cada cultura. Não é necessário segui-las, mas reconfigurá-las, para que caiba no seu coração.

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8 Comments »

 
  • Flávia disse:

    “Os sentimentos (des)montam. Talvez, a vida valha por esses acasos.”
    “Há saudades que inspiram.”
    “Há proximidades que maltratam de forma fugaz, sem abismos.”
    Antonio, assim você mata a gente…
    E ainda se junta com os Beatles para
    nos fazer lembrar que “ ontem todos os meus problemas pareciam tão distantes / agora parece que eles vieram pra ficar” (…) / “agora anseio tanto pelo ontem. (…) (Yesterday)
    Mas se você nos diz que “nas lacunas, a vida se forma e se traça”, que venham então as faltas, os desejos, as ficcções dos sonhos.
    Que também venha a saudade de Neruda, “a solidão acompanhada, quando o amor ainda não foi embora”…

    Que venha Chico Buarque, com “tanta saudade”:
    (…) “ Se eu não mato a saudade, é ‘deixa estar’
    Saudade mata a gente, saudade mata a gente menina (…)”
    “Quis chegar até o limite de uma paixão
    Baldear o oceano com a minha mão
    Encontrar o sal da vida e a solidão
    Esgotar o apetite, todo o apetite do coração
    Mas voltou a saudade”
    Como não voltar?
    Melhor que volte do que nunca senti-la.
    Pior é passar pela vida e nunca vivê-la.
    E depois de se emocionar, confiar nas palavras de Rezende quando nos diz que “a paciência dialoga com o afeto e, às vezes, esclarece trajetórias de caminhos, antes, invisíveis”.
    Merci, Antonio.
    Bjs
    Flávia

  • Juliana Araujo disse:

    Adorei as palavras professor!

    Estou passando por uma experiência diferente das que passei. Que me deixa toda confusa e sem saber o que fazer. É um misto de saudade que vai aumentando com a distância, mas que as vezes doe muito sentir isso. Não sei bem se consegui compreender a essência do texto e também não sei se vou querer continuar a passar por essa situação em que estou vivendo,por algumas razões que não me agradam. Porém, reconheço que vivi momentos lindos que só de pensar choro de saudade… Mas pode deixar professor, viverei cada sentimento sem medo e farei com que essa saudade caiba dentro do meu coração.

    Abraços
    juliana

  • Juliana

    Saudade é um sentimento que anda com a agente. Por isso, é forte e vivê-lo é importante. Pense no que ficou, na sensibilidade. Tudo temina passando e você não pode perder de vista a experiência. A saudade mexe, mas é humana e diz do coração.
    um aabraço
    antonio paulo

  • Flávia

    A saudade move muito o coração, mas não há como viver sem ela. A gente vai se costurando. O aprendizado é grande.
    abjs
    antonio paulo

  • Tô sempre por aqui matando a saudade.
    Um grande abraço de coração.
    Zélia.

  • Zélia

    Você é sempre uma visita querida.
    abraço
    antonio paulo

  • ana cristina brandim disse:

    Achei maravilhoso esta discussão sobre a saudade, inclusive colocarei uma definição sua em meu trabalho…é o blog como ferramenta de pesquisa ou como ferramenta da saudade? Como diz Mário Quintana “o passado não reconhece seu lugar: está sempre presente”
    bjs,

  • Ana

    Nada como os bons encontros que trazem ânimos e caminhos. Grato, pela presença.
    bjo
    antonio paulo

 

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