A saudade não perde o ritmo dos momentos

   

As lembranças se encarregam de revirar a memória. Caminhar, pelo passado, não é pisar em sepulturas. As emoções não deixam a mudez se espalhar e os ecos dos tempos não descansam. Por isso, cultivo encontros, mesmo distantes e desatentos ao meu agora. Minhas idas aos campos de futebol estão vivas e saltam as sequências dos instantes. Recordo-me de jogos que deram o penta- campeonato ao Santa Cruz e os bons momentos da série A. As arrancandas de Ramon preenchem o vazio que percorre as incertezas do hoje. E as poucas vezes que vi Pelé encher os estádios com seu charme persistente?

É a saudade anunciando seu envolvimento com a construção da minha história. Fellini, nas telas do cine Coliseu, quando tinha perto de vinte anos, era um deslumbramento. Lá se foram tantos cinemas de arte, levando Godard, Antonioni, Visconti, Chaplin, substituídos por igrejas e mercados. Mas tudo não se apaga, como não desaparecem as idas às livrarias da rua da Imperatriz, em busca de obras sobre a rebeldia marxista. Outras ansiedades, outros pactos com a política, insatisfações que machucavam o peito e criticavam os desmandos do autoritatismo dos anos 1970.

Mudam as leituras, os poderes se esfacelam e o planeta Terra ferve. Nem todos comungam com as hipocrisias, nem se acomodam com as desigualdades. Há sempre acrobacias condenáveis que procuram desmantelar os projetos de cidadania. Com a globalização do mundo, elas chegam e provocam redefinições. Os fundamentalismos ameaçam solidariedades e formam inimigos estranhos. Quais os propósitos ? Quem sabe. As diferenças terminam servindo de pretexto para guerras e desqualificações.

Imagina-se que as tecnologias, apenas, aproximam. Elas também torturam, esticando desejos de consumo e ajudando na fabricação de censuras. Os jornalistas são perseguidos no Egito, onde os computadores fertilizaram protestos e assanharam vozes democráticas. As invenções não são sonolentas. Acompanham-se das espertezas do poder, trocam relações de esperança, por genocídios ferozes. A bomba atômica marcou a contemporaneidade e afirmou a complexidades das ambições, sem limites e febris.

Os espaços das reviravoltas não se extinguiram, porém a memória dos estragos dos embates, no Vietnã , ainda assustam os norte-americanos. A derrota surpreendeu e as decepções angustiaram gerações. Foram anos de sofrimento, de desespero, com registros extensos nos territórios da cultura. Os abalos fragilizaram vaidades e trouxeram vazios psicológicos. Nem por isso, a paz se concretizou e fez seu leito. As intrigas inquietam e novas armas são testadas com o carimbo da morte indescritível. O sangue tem cheiro e rosto. O enigma risca o espelho de Alice.

São tantas coisas que moram, no passado, que a escrita se inunda de saudades. O tempo formula suas orações sagradas,  rasgando suas vestes de harmonia. Ele está presente. Reconfigura  lugares que pareciam esquecidos. Não é , sem razão, que os ritmos da vida dialogam com tangos, blues, sinfonias, óperas… Cada gaveta da cômoda, mesmo desocupada, guarda olhares feridos. O Santa Cruz parece  livrar-se de tantos desacertos, Felinni me atiça a alma, Zabriskie Point (foto), de Antonioni, desafia a sensibilidade. A saudade me liga, nunca me dispersa. Não importa o desenho do minuto.

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4 Comments »

 
  • Telma Lúcia disse:

    Olá Prof. Paulo Rezende.
    Muito interessante sua forma de escrever e descrever os sentimentos, no indo e vindo, entre passado e presente em que se misturam a política, ao jogo, a economia, aos problemas sociais etc. e junto a todos esses fatos, seus próprios sentimentos que são demosntrados através da sutileza de um artista ou um poeta. São suas as saudades em que se apresenta até mesmo as gavetas desocupadas da comôda; quem ousa duvidar desse sentimento que parece tentar brincar de esconde – esconde, mas que na realidade ora está lá distante e ora tão presnte, mas bem sabes que tudo isso faz parte de quem se diz e se apresenta muito humamo. Quem sabe demasiadamente humano? Viver sentimentos com sabedoria é viver bem!

    Abraço

    Telma Lúcia

  • Telma

    O sentimento dá uma atmosfera diferente ao cotidiano. Onde não há afeto. falta energia para olhar o outro. Isso desmonta, tira a vontade de ir adiante.
    abs
    antonio paulo

  • Flávia Campos disse:

    Enquanto Vinícius de Moraes canta:
    (…) “Tomara
    Que a tristeza te convença
    Que a saudade não compensa
    E que a ausência não dá paz.” (…)
    Antonio, em seu texto, nos revela que a saudade é a confirmação de que o passado valeu a pena e, por isso mesmo, se faz presente no retorno. Como disse Bob Marley “tudo aquilo que é realmente nosso, nunca se vai para sempre…
    E quando a saudade chega, Rubem Alves nos avisa que “é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar”.
    Não é a toa que Clarice Lispector afirmou que “a saudade é um dos sentimentos mais urgentes que existem.”
    Sem ela Antônio, como poderíamos “refigurar lugares”, ressignificar o encontro, retomar o ritmo da vida?
    “A saudade me liga, nunca me dispersa. Não importa o desenho do minuto”. (Belíssimo).
    E viva a saudade!
    Ou seria melhor: não viva sem sentir saudade!
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    A vida sem saudade fica desajeitada. Ela assegura nosso diálogo imaginário com os outros e o cuidado com o tempo.
    bjs
    antonio paulo

 

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