A saudade não tem tempo definido e seguro

Dizem que é bom guardar a saudade escondida no coração. Não se importar com as inquietações. O certo é entender que ela flutua. Seria impossível inventar um calendário fixo, objetivo, para aprisionar as inconstâncias da saudade. Ela adora um tapete mágico e contos de fada. Pertence ao território da imaginação. Traz sofrimentos, porém não poupa fantasias. Tudo, em alguns momentos, se transforma numa grande ficção. Vamos buscar outros sentimentos. As portas fechadas se abrem e alimentam retornos. Portanto, não adianta estabelecer regras e firmar domínio. A sinuosidade é soberana.

A saudade é surpreendente. Não faz parte de matemáticas exatas. Seus cálculos são inseguros. Gosta mesmo é de dividir. A subtração é dolorosa. Não sente , apenas, as ausências das pessoas. Um grande amor perdido é um desastre. Paralisa a vida, embora o tempo não cesse de pulsar. No entanto, a perplexidade inibe e desacredita. Será que existe outra possibilidade? Caímos no abismo das indagações. A instabilidade causa buracos nas estradas que percorremos, desconsolados e vazios. Não temos prognósticos de cura. O reino do vaivém tumultua qualquer sentido ou controle.

Há os especialistas. Eles afirmam que o amor é, sempre, passageiro. A saudade o acompanha. É inevitável. A eternidade não casa com o sentimento. O mundo é confuso, a velocidade exige ação contínua, o pragmatismo garante sucesso e bons empregos. Não se vive sem teorias. Cada um inventa a que lhe provoca mais sossego, mas há quem se desespere e mergulhe no mar do sufoco. Não é à toa que se fala de masoquismo ou outros desamparos. A melancolia  possui, também, múltiplas dimensões, suas cores se misturam e cegam. O que se encontra próximo se faz distante. Forma-se um mapa que não admite fronteiras, lembrando contos de  Italo Calvino.

O amor parte, volta, desiste, reassume. Cabe na sua gramática um dicionário inteiro de verbos estranhos ou comuns. É inegável que converse com a saudade. As emoções atuam na sua informalidade cotidiana. Não sei se hoje, em plena turbulência pós-moderna, alguém morre de amor. É uma dúvida. O individualismo está tão marcante que coloca os sentimentos nos lugares inesperados. As escolhas afetivas não obedecem a nenhuma constituição republicana. Por isso, que o amor não desaparece, mesmo que as friezas tecnológicas nos façam pensar nos lucros e nas vitrines, fugindo da sensibilidade e suas travessuras. As expectativas atravessam planos e fragilizam armadilhas que visam a diminuição das saudades, da extensão das suas medidas.

Naveguemos. Nem tudo na vida está numa esquina sem sinal ou num diário de bordo. Os segredos e as vacilações compõem nossos rocks e sinfonias. O sentimento nunca se ausentará de vez. A saudade sacode memórias. Não falta espaço para configurá-la. Muitas vezes, as pessoas ganham outros destinos, contudo as coisas permanecem na sua solenidade profunda. O cheiro do perfume, a leveza do lençol, a fruta na geladeira, o chocolate amargo perto do som. O texto é pequeno para tanto devaneio. Uma música de Chico, um tango de Piazzolla, um poema de Neruda. Olhe-se no espelho e não se acanhe com o traço da última lágrima.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

10 Comments »

 
  • Quem tem a saudade como fiel companheira lê cada linha desse texto tocado pela emoção – e pelo prazer da leitura diária do seu blog.

  • marcio lucena disse:

    A saudade de Riobaldo:
    “Diadorim, na pior hora, tinha desertado de minha companhia”. Ela “me largava lá sem palavra própria da boca, sem um abraço, sabendo que eu tinha vindo para jagunço só mesmo por conta da amizade! Acho que me escabreei. De sorte de tantos pensamentos tive, duma viragem, que senti foi esfriar as pontas do corpo, e me vir o peso de um sono enorme, sono de doença, de malaventurança. Que dormi. Dormi tão morto, sem estatuto, que manhã cedo, por me acordarem, tiveram de molhar com água meus pés e minha cabeça, pensando que eu tinha pegado febre de estupor. Vou reduzir o contar: o vão que as outros dias para mim foram, enquanto. Desde que da rede levantei, com aquele peso amortecido, amanhecendo nos olhos. Tempo de minha vazante. A ver como veja: tem sofrimento legal padecido, e mordido e remordido sofrimento. Dias que marquei foram onze. Aqueles dias eu empurrei, mudando em raiva falsa a falta que Diadorim me fazia. Aí, curti amargos. (…) A alma assim meio adoecida”. G. Rosa

    abraço
    marcio lucena

  • Vítor Jó disse:

    Excelente texto. Salvei-o aqui. Boa sensibilidade.

  • Vitor

    É bom caminhar pelo sentimento. Soltamos o coração. Grato.
    abs
    antonio

  • Denílson

    Grato pelas palavras. O sentimento move o mundo e a saudade está sempre nos acompanhando. Não temos controle sobre o tempo, apenas o inventamos, sem saber a razão.
    abs
    antonio

  • Márcio

    Guimarães é mesmo insuperável. Grato pelo encantamento que trouxe.
    abs
    antonio

  • Spinosa disse:

    Antonio,

    nao consegui, pq me defendi, a devida captaçao na primeira vista. Foi necessario olhar para rever a mim mesma nestas belas linhas.

    Obrigada por isso. És genio e sentimento em pessoa 🙂

  • Vanessa

    Grato pela mensagem. Sua sensibilidade também ajuda na abertura e nos significados do texto.
    bjs
    antonio

  • Filipe Machado disse:

    O que sentimos é pessoal e cada um o sente da sua maneira, más originados de sentimentos, muitas vezes coletivos. Com toda certeza, é bastante difícil sobreviver ao desastre que alguns sentimentos causam, contudo como dizem: o tempo é responsável por curar as dores. Além do mais, e na maioria das vezes, esse sentimento é imprevisto e incontrolável. Desrespeitam as lógicas da razão. Porém, feliz de quem tem um grande amor na vida, para poder ser feliz com suas lembranças.

  • Filipe

    O sentimento tem outras lógicas. Não dá para viver sem elas.
    abs
    antonio

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>