A sociedade do espetáculo sofistica os disfarces

A construção da cultura se dá com diálogos que nem percebemos. Não significa que não haja conflitos ou desperdícios amargos. Os filósofos gregos lembravam a importância do equilíbrio. Não deixamos de buscá-los, mas a complexidade das ações humanas consagram dúvidas e frustrações. O mundo enche-se de incertezas no meio de verdades necessárias para manter a sociabilidade. Cada época com a sua história refaz invenções e não despreza a memória. Na sociedade de consumo, as relações ganham uma mistura especial. A exaltação da mercadoria transforma afetos em desconfianças. Tudo tem um preço. O dinheiro dita as ordens de quem o controla ou quem o controla dita as regras máximas dos negócios?

A cultura monta-se não, apenas, com objetivos futuristas. Planeja-se, sem garantias de destinos. Há suspenses e quem os decifra é recompensado. O espetáculo não precisa de bastidores para acontecer. Pedaços de rua, bancos de praça, esquinas estranhas possuem cenários e máscaras. Os mais sofisticados elegem modelos de sucessos que apresentam arquiteturas majestosas ou mesmo ocupam páginas de facebooks. Não subestimem as artimanhas das linguagens tecnológicas. Observem como as imagens anunciam lugares, testemunham sentimentos, lamentam desencontros. Tudo numa velocidade de minutos. Desconversem: amores se desmancham ou expressam salvações mágicas.

Portanto, as transparências tão celebradas sofrem seus incômodos. Os sinais não são simples. Possuem poder de esclarecimento para alguns, porém criam desenganos e distâncias para outros. O que mais impressiona é que a sociedade do espetáculo não vive sem prestigiar mudanças. Elas envolvem com disfarces e com discursos que confundem. A sociedade produz culturas, firma hierarquias, brinca de desenhar simultaneidade. Até mesmo a solidão ornamenta seus descontroles. O que mais importa é a astúcia das imagens, seus códigos, suas improvisações.

Com identidades múltiplas convivemos e recolhemos as verdades impostas. Não temos como afirmar valores que assegurem tradições. A fugacidade é o manifesto do espetáculo, seu estar no mundo encantado do instantâneo. Não jogamos fora o passado, mas não custa escolher o moderno. É uma questão de costurar a sobrevivência, não expor tristezas. A palavra moderno traz um conforto para quem aposta na atualidads e suas saídas. Poucos ousam desprezá-la , numa homogeneidade que entrelaça política, ciência, divertimento. Sertá uma tentativa de negar a experiência e fortalecer a esperteza da competência? Ou ser feliz é uma obrigação para não perder a perspectiva da fantasia do vencedor?

Não é um engano afirmar que as rupturas possam simular a manutenção de conservadorismos. A existência de muitas linguagens se articula com o movimento do cotidiano. É impossível compreendê-las na sua totalidade. Elas movem poderes e se infiltram nas academias festejadas. Quem se afasta do espetáculo, quem desconfia das exibições, quem evita os modismos pode cair em melancolias terríveis. Somos todos grupelhos, ressaltou um pensador do século passado. Escutamos e curtimos buscando semelhanças, mas também contemplando espelhos. A sociedade especula, gosta da imitações, só não quer quebra suas vitrines. O show do eu poder ser efêmero, mas tem o perfume da eternidade sofisticada. Há quem penetre nas suas imagens e estenda seus cinismos.

 

 

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>