A sociedade na busca do indefinido equilíbrio instável

As inquietudes  não estão apenas na modernidade. Os tempos históricos convivem com surpresas e ousadias desde as épocas consideradas remotas. Não é escorregadio assumir que a linha reta mal diz das relações desencontradas que acontecem até nos pequenos grupos. O ponto final nos amargura. Inventamos saberes, buscamos moradias estranhas, criamos leis, mas há um ritmo de tragédia que se mistura com o cotidiano. Na velocidade da aldeia global, ele ganha uma ressonância incrível. Não se angustie com as quantidades que circulam. É impossível aprisioná-las. Elas se espalham. Muitas ficam restritas às pessoas que a produziram, outras chocam e aborrecem. Somos diferentes, porém as semelhanças nos lembram de limites comuns.

Não estamos na Mesopotâmia dos grandes impérios, nem na Grécia das tentativas democráticas. Há distância, costumes, cotidianos que não atendem às complicadas tecnologias que nos cercam. Isso é comum. No entanto, quem não sofre pelas perdas de amores? Quem não se entristece com as fugas mortais de utopias que pareciam tão próximas? A busca da felicidade não é uma ficção. Édipo pensou que enganava seu destino, mas sucumbiu a um desmantelo profundo. Muitos apostam numa fama quase interminável. Terminam convivendo com o desespero e a miséria.

O equilíbrio não é uma visão transcendental. A incompletude que nos domina não permite que ele se prolongue. Quando cogitamos descobrir as certezas, caímos em abismos inesperados. Por isso as formas dos labirintos são atraentes. Encontramos saídas efêmeras, risos passageiros, porém há agonias que atormentam, desmancham sonhos pertinentes. A ideia de um equilíbrio instável atravessa as reflexões de Freud. Se só  somos tomados por desacertos a vida será um amontoado de perdas insuportáveis. Pesadelos se vão, luminosidades excessivas se desgastam. Nós cultivamos a possibilidade de refazer ruínas.

Os mistérios estão no dia a dia. Não dá para explicar tudo, para fixar afetos e afastar de vez as violências. O problema é que o incômodo da competição nos intimida ou nos convida a olhar o outro como um adversário insuportável. A instabilidade não se retrai. As disputas são contínuas, arrasam solidariedades, montam escatologias. Mas há como o absoluto reinar de formar totalitária. Os desequilíbrios também possuem suas fragilidades. Há tempos que se enchem de ilusões. Futuros pintam imagens de cores que avivam a felicidade. A sociedade não se resume a mandamentos. Ela continua, porque se reinventa, apesar dos desperdícios.

Não estamos livres das ruínas. Não sabemos qual a escrita  permanente da história. Narramos que vivemos com as imprecisões possíveis. Não parece que desistir seja uma ordem universal. Perguntamos como os refugiados sofrem tanta repressão, como as religiões perseguem outras crenças, como a política não se concilia com a força da coletividade? Não faltam desejos, como também respostas. Construindo o texto, nos sentimos no meio do mundo, costurando mantos para sossegar o frio, nos balançado em trapézios para aprender com os perigos. As palavras abraçam, jogam com a memória, importunam, anunciam o tempo nunca é uma prisão. O pecado e a culpa se conjugam nas orações, mas as rebeldias não silenciam, mesmo com o fluir das dissonâncias.

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