A sociedade não esquece a exploração do trabalho

Nos seus Manuscritos Econômicos e Filosóficos, Marx escreve sobre o trabalho e sua importância para cultura. Dentro de uma perspectiva dialética, o trabalho transforma a natureza, altera as relações sociais, mas pode criar armadilhas que enfraquecem a solidariedade humana. A trajetória das relações sociais nunca garantiu harmonias perenes. A exploração se faz presente, com violência ostensiva ou sutileza mascarada. Há muitos autores que mostram os desequilíbrios econômicos e os projetos para resolvê-los. As sinuosidades históricas estimulam desafios. Houve a escravidão, nos tempos modernos, alimentando lucros e hipocrisias. Mesmo na aldeia global, observam-se desmantelos incríveis. O desemprego se alarga e a riqueza guarda os privilégios de uma minoria.

Essas reflexões iniciais estão relacionadas com o romance que estou lendo e recomendo. Sua trama é atraente. Intitula-se Equador. Foi escrito por Miguel Tavares e retrata questões sobre o trabalho no século passado. A base é São Tome, colônia portuguesa, envolvida com mão-de-obra de origem angolana e marcada pela força de seus proprietários, subjugando os trabalhadores. Surgem polêmicas sobre a existência da escravidão e a Inglaterra pressiona, buscando tirar proveitos. Aquela velha disputa, disfarçada em generosidades, porém com interesses capitalistas em jogo. O vaivém dos poderes lembra como as repetições se sucedem e as dificuldades de se revelar os bastidores da história.

Estamos nos referindo a tempos que passaram. Nem todos compactuavam com a exploração. Hoje, enfrentamos, também, dissabores. Apesar das chamadas revoluções modernas, o mundo mantém práticas criticadas pelos mais ferrenhos liberais. Penso, às vezes, que vivo noutro século, pois os espelhos não se cansam de acenar com imagens que pareciam esgotadas. No Brasil, acontecem mortes encomendadas. As notícias não saem dos jornais. O trabalho não traz a dignidade prometida, a terra é monopolizada e os recursos naturais desfigurados.

Tudo isso não é novidade, mas não custa afirmar que a exploração se espalha. A tecnologia refez a produção de objetos, acelerou processos e gerou euforias. É preciso provocar os que dormem, sonhando que a sociedade se encontrará com o paraíso. Há destinos divinos, proclamados e indecifráveis. Um olhar mais profundo nega  as exaltações progressistas. A quantidade é uma isca que encanta os admiradores de Narciso. O trabalho inventa, ajuda, quebra monotonias. No entanto, há certa apatia, de muitos, na análise das extensas jornadas de trabalho que, ainda, cativam e fermentam os desejos individualistas.

Ir e voltar. Desenhar o passado e riscar traços que lembram a contemporaneidade. Não poderia ser diferente. Os tempos históricos dialogam, não há exagero em tocar em sentimentos e nostalgias de outras épocas. O lugar do historiador é complexo. Alguns gostariam de consagrar a continuidade, visualizar os equilíbrios construídos nos caminhos. É difícil, porque a diversidade cultural está dentro das relações e tendem a se multiplicar no mundo do consumo e do espetáculo. Portanto, a instabilidade não se ausenta, pois a concentração das ambições não se enfraquece. A escravidão não se foi, nem tampouco é um vestígio efêmero. Ela sobrevive, não, apenas, nos romances, porém próxima das vitrines dos shoppings e das sufocantes minas de carvão. Basta duvidar do cinismo.

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