Desmanches: a sociedade se reparte e adoece

 

Não há como evitar a existência do poder. Organizar a sociedade é fundamental. O importante é pensar que há muitas formas de escolher caminhos. Lembrem-se dos romanos desconsiderando os povos bárbaros, das fundações da democracia grega e moderna, das utopias do século XIX, da sede de conquista de Hitler. São sugestões de projetos diferentes. Há extravagâncias autoritárias, fraquezas na socialização, sonhos ditos impossíveis. Nunca faltaram vazios, nem insatisfações. Tudo tem um toque de instabilidade. Observe como foi o movimento de 1930 no Brasil, a ditadura de Stalin na União Soviética, a loucura de Nero na antiguidade, a opressão de Portugal no escravismo.

Cenário aberto para polêmicas que propagam. Há quem deseje a volta doa militares, outros torcem pela afirmação das práticas nazistas. A confusão é imensa. A democracia aparece como preciosa. Teríamos equilíbrio, liberdade de opinião, o coletivo agindo sem censura. Mas há questões inesquecíveis. Na sociedade moderna, as composições são efetivamente democráticas? As sociabilidades se modificam, as críticas se renovam. No entanto, as explorações se foram da história? As rivalidades morreram e a corrupção desapareceu? O silêncio é impossível diante de tantas perguntas.

A Revolução Industrial moveu a produção, introduziu o trabalho assalariado, criou mercados internacionais. Esperava-se o crescimento de lugares sem desigualdade. O Estado cuidaria de romper com o passado opressivo. E as mobilizações revolucionárias? O que houve com a Comuna de Paris? Por que colonizar a Ásia e a África? O que significou a China na época de Mao? A democracia virou pó, escondeu-se ou ainda se espera alguma coisa? O mundo se encontra numa tensão constante. A violência existe nos Estados Unidos, na Síria, na França, em todo canto. Não é excepcional, nem um fenômeno que abala apenas os tempos atuais. O que fazer? Não há como sentir sossego?

Mudam as astúcias, mas as disputas não dispensam massacres. Há uma corrida para se aperfeiçoar as armas. Portanto, nada de diálogo que fertilize a reflexão e combata os desacertos contínuos. O Brasil tem uma história marcada pelo autoritarismo. Getúlio Vargas instalou o Estado Novo, Médici persegui seus adversários usando a repressão, Dilma sofreu com as articulações que a derrubaram. Questiona-se a possibilidade de se compartilhar a vida, sem celebrar o individualismo e expandir as ambições. O pecado nos mete medo e nos condena a navegar no pântano? Deixemos as lendas de fora e  encaremos as incompletudes. O paraíso é um perfume da imaginação.

A aflição aperta corações e mentes. Não há como trazer magias insuperáveis. Tudo lembra desafio. Freud definiu a força do inconsciente. Não é só o corpo que adoece com frequência. E as psicopatias, a negação do outro, as bombas mortais, a ciência aliada à tecnologia da destruição? Construir a ideia de progresso é uma falácia. Há recomeços, desistências, fracassos. A memória traça desenhos de profundos desastres e genocídios assombrosos. Por isso que os cansaços aparecem, os salvadores inventam mitos, a sociedade se reparte em grupos hostis. Não é sem razão que os sentimentos podem enlouquecer e os sentidos se transformarem em esqueletos horrendos.

Share

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>