A solidão de Gabriel: cem anos míticos

As portas estão abertas. São ruas estreitas com ruídos inusitados. Quem fala são os juízes. Acusam quase todos os políticos. A corrupção é desmedida. O medo é cínico e o final pode ser feliz. É um sinal de uma solidão estranha. Todos se parecem, guardam milhões, a sociedade se desgarra. Todos juntos no mesmo ato, mas sós nas suas angústias. Há uma embriaguez sem adjetivos. Caberiam todos nas aventuras de Macondo? Não acredito. Gabriel gosta de outros perfumes, ama metáforas, detesta hipocrisias, navega na magia, se distrai com os mitos.

A história não se cansa de se arrumar. As perturbações mostram que o acaso não é estrangeiro. O mundo é visitado por assaltos constantes. Sobrevive com remendos. Não conhecemos as origens, como vamos conhecer o fim? Será que a sociabilidade não é um disfarce? Quem escuta quem? Gabriel captou o isolamento e os devaneios. Escreveu com a ajuda de fadas, porém não se descolou dos desencantos e das misérias. O homem é um animal assustador, por isso inventa deuses e procura o extraordinário. Pergunte pela violência, feita no cotidiano.

O tempo nunca foi linear. Ele gira, pula, entontece. Simpatiza com Nietzsche e atravessa as tempestades do retorno. Observe Ulisses, entre nos abismos da cultura grega, tome um café com Homero e sinta as coragens de Prometeu. Gabriel não se descuidou. No seu livro estão todos. Quem o lê, com paciência, aprofunda sua interioridade, se desengana para mergulhar num oceano que não tem cor. Melquíades desafia as dualidades, Acardio assanhou a imaginação, Úrsula não temia complexidades. Macondo era inferno e paraíso.

Nunca achei que existem verdades sagradas. Gabriel me trouxe mentiras que agradam e levitam. Por que fazer apologia de racionalidades opressoras? Há quem seja devoto dos grande modismos reflexivos. A academia despista, condena a religião, contudo elege seus deuses de forma articulada. Há vitrines, ídolos, bajulações, arrogâncias. O lugar comum não se esconde. No entanto, devia seguir as leituras das tragédias gregas. As badalações curtem vaidades e os preconceitos multiplicam suas garras. Os facebooks invertem a ordem das dores.

A solidão está no corpo. Mire os olhos. Deite-se na cama de Amaranta, de Remédio, de Rebeca. Todas as mulheres se envolvem com os amores e exaltam a maternidade? O feminino possui histórias inesgotáveis. Quando entro em Macondo sigo abrindo as portas, contando as armas da guerras, os suspiros do sexo, o desejo de ficar na solidão. Não sei se o mundo se extinguirá. Quem criou deus  pensou na utopia definitiva. Prefiro dialogar. Os anos da solidão não moram no calendário da sala escura. Desenham-se dentro das veias do coração. Olhe-se no espelho e se reconheça, sempre.

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