A solidão é companheira do mundo

 

Vejo multidões nos estádios de  futebol. Cantam, gritam, se emocionam. É uma grande festa com cores e geometrias inesquecíveis. Tudo parece um paraíso com celebração deslumbrantes. A festa passa. A ressaca surge. Os segredos pessoais continuam. Há sempre um retorno à solidão. Há pressa e desconforto quando o outro se aproxima. Será que vivemos num mundo de emboscadas constantes? As neuroses estão firmes, não abandonam a cultura. O medo do amor é visível e a sexualidade ganha debates cotidianos. As aparências não dizem tudo. Mudamos, mas conservamos as incompletudes. Leia Elizabeth Roudinesco e sinta como flutuamos sem cessar. O labirinto permanece indestrutível e com cartografias do acaso.

Fiquei impressionado com uma nota do Facebook. Há mulheres que ganham dinheiro abraçando homens carentes. Profissionais do afeto, talvez, também mudas nas suas solidões incontornáveis. Os consultórios dos psicanalistas estão cheios e as farmácias faturam alto. Quanto maior a crise, mais a sociedade busca amparos. Tudo está muito torto ou desgovernado. Congela-se  uma desconfiança marcante e doentia. Quem está conosco? Olhamos os quartos vazios, as ruas ruidosas, porém o silêncio interior atormenta. Temos dificuldades e não poucas. Não se trata, apenas, de grana. Somos animais sociais e  exercemos com mesquinhez a simpatia e a solidariedade. Há deslocamentos que não admitem os mitos de Prometeu e Édipo.

O cuidado é com a economia e a suspeita. Quem foi preso, quem roubou, quanta custa o novo celular, qual é o destino de Temer? O espelho revela migalhas. Vemos imagens envelhecidas pelas dúvidas. pessoas torturadas pelos seus ódios. De onde viemos? O capitalismo caminha para o apocalipse? Procuramos respostas nas reflexões dos especialistas. É importante a impessoalidade, defendem alguns. Desprezamos diálogos passados, não ouvimos relatos de experiências, algo nos faz se envolver com exílios. O inferno mora nos outros ou em nós mesmos? Sempre a interrogações, os vazios, as vitrines, as buzinas, o vizinho calado. Os sonhos  se reduzem  e as mercadorias  oferecem ambições contínuas. E os anjos da guarda? Estão curtindo as férias? Foram assustar os delírios programados de Trump?

Não celebremos o caos infinito. Nem todos se fecham e dormem assistindo aos seriados de TV. No entanto, não é espantoso que,nos lugares públicos, apesar das imagens e dos risos, se falem de coisas que aumentam a solidão. Não estamos no fim do mundo. Não sei quando o decreto divino vai funcionar. Tenho outras expectativas, para além do Supremo Tribunal e das astúcias venenosas de Sérgio Cabral. Criou-se uma atmosfera de embates que nos cansa. A sensação de perda não é rara. Gente afogado no ressentimento e nem percebe.O pessimismo  ataca e as psicoses não se vão. O que fazer? Gosto de bater papo, com os outros e comigo mesmo. Por que abandonar o mundo? Um abraço vale um dia, nunca recuso o afeto e a troca de alegria. Quem se esconde na solidão não descobre as aventuras. O aperto do preconceito social é que desfaz as batidas do coração.

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