A solidão e o cansaço do último deus

Responder as perguntas que aparecem, lembram divertimentos. É difícil sair por aí, ouvir as conversas, escutar os mistérios, ver os rostos desconfiados e guardar-se. Dá vontade de duvidar que há continuidade na vida, se tudo não é uma flutuação tola ou viagem do acaso. Vou e torno-me numa armadura medieval. As pessoas se falam, mas não se entendem. As distrações são muitas e cansam. É preciso um canto para arrumar um esconderijo. As metamorfoses são raras. No entanto, as fantasias brincam para que  o tempo não adormeça. Não pense que no meio do mundo você se livra da solidão. Talvez, a fixe de forma cruel, enferrujada com o sangue do cimento armado.

As bombas atômicas mostraram que a violência não esquece a história. Tenta-se a paz. Tudo não é uma aposta ou acaso malabarista? Buscar as definições produzem metafísicas. Sinto necessidade de transcendências. Acho territórios estreitos e teimo que existem tapetes mágicos. É importante não se encantar com a mesma imagem. O inventar movimenta a vida, traz certos desconfortos, sacode a cultura, celebra a existência. Não se entusiasme, pois tudo tem um ponto final, deixe para contar sua aventura quando se sentir herói no meio do espanto de vozes alucinadas.Colar as palavras, sem atravessá-las de significados, é um brincadeira inútil. Imagine algo que supere o impossível.

Deus fez o mundo porque gosta de se mover. É o que dizem os mais astuciosos. Não acredito. Se existir um deus poderoso, ele adora humor e estimula riscos. O silêncio pode lhe causar tédio. Acho que tudo termina ficando por conta da solidão. Lá dentro se configura o invisível, a mágoa que não foi revelada e o labirinto perdido de uma paixão sem suspense. O desespero é o reino da apatia e do desengano. As nuvens querem a dança do infinito e da travessura sem compromisso com a verdade, mas com a leveza do verde. Reverenciam Nietzsche.Todos somos poetas quando as portas se abrem alegres com aves em fuga coletiva.

Voar é com os homens amedrontados ou com os duendes assustados? Voar é com os pássaros, vendo as rosas vermelhas e sentido o cheiro do vento perfumado. Sente-se num banco, mire-se na figura mais distante e deixe a praça se esvaziar. Não desista. A solidão sabe conversar e conhecer segredos. Desenhe na areia o boneco que sintetize a infância. Freud tinha razão. A felicidade é um equilíbrio instável. Não é profano que o mundo desapareça e meu banco sirva de dormida para o último deus. Dissonante, como A Sagração da Primavera de Stravinsky, a história se desfaz vagamente, no meio de alguma coisa. Eu fico debaixo de uma sombra abandonada. Há uma travessura que continua a vida como se o universo não tivesse tamanho.

 

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