A solidão na busca dos esconderijos da vida

A sociedade curte espetáculos grandiosos. Gosta de encontros que movimentem multidões e festejem aparências. Até as eleições ganham dimensões de  cores variadas. Todo partido possui uma camisa simbólica, um ornamento. Faltam as reflexões e a confiança na cidadania. Nem todos navegam, contudo, pelos oceanos da exibição. Não custa criar os contrapontos, observar as ansiedades e os cinismos articulados com a vontade de poder. A multiplicidade reina. O mundo é uma exposição interminável de  coisas, pessoas, armadilhas, famas, vitrines, esgotos, labirintos, arrogâncias, tecnologias, melodias, desfavores, máquinas… É preciso, portanto, fazer escolhas.

Como buscar, selecionar, optar num meio de tantos ruídos e controles? A dominação não para de inventar manipulações. Existem especialistas na conquista de adesões ao discurso do poder. No meio de confusões ensaiadas, a serenidade pode evaporar-se. Há pressões para que a maioria siga caminhos semelhantes. Muitos temem isolamentos. Querem espelhos, ouvir cumprimentos e bajulações, mergulhar na mediocridade rotulada. Por isso, os sentimentos recebem atenção na pedagogia cotidiana. Os racionalistas ortodoxos ressaltam as objetividades e desprezam quem sente a dor ou reclama da melancolia. As estratégias do disciplinar são decisivas para manter e fabricar ilusões pouco saudáveis.

Quando se fala em solidão há certo desconforto. Não se tenta compreender que solidão não é uma palavra com um único significado, nem uma psicose sem cura. Como situar-se no mundo sem construir diálogos interiorizados, sem escutar silêncios e mistura-se com o vivido? Muitas luzes cegam, muitos ruídos quebram a sensibilidade. a soberania da razão já não fascina como antes. Lembre-se de Nietzsche, ou mesmo das análises que Peter Gay escreveu sobre a burguesia e a educação dos sentidos no século XIX. Não dá para anular as experiências e desfiar-se nas novidades. As fantasias compõem a vida, contudo a incompletude avisa que somos carentes e inacabados.

Olhar o vaivém da cultura sem acumular sustos ou tolerâncias é fundamental. Não adianta esperar milagres. A secularização reforça a autonomia, não extingue o social, mas não nega que a solidão traz recolhimentos, não é uma fuga. Estamos , sempre, em companhia, pois a solidão absoluta é devaneio mesquinho. Somos construídos arquitetando sociabilidades, gramáticas, regras e transgressões. Introjetamos os valores e eles não se tornam mudos. Viver a subjetividade não é uma renúncia, porém um reconhecimento das aventuras e seus aprendizados. Os sinais da massificação elevam a  monotonia, engradecem a mesmice.

As interpretações dos sentimentos pedem que não se perca o que se forma dentro do nossa intimidade. Não há como afastar as máscaras do teatro da vida. A transparência não tem visibilidade para definir a extensão dos mistérios. As travessias não possuem geometrias determinadas com antecedência. Na solidão, contemplamos a diversidade, atravessamos a ponte que une o de dentro com o de fora. A sinfonia dos sentimentos não é incompatível com paciência para distinguir as formas dos labirintos. Eles nunca deixaram de ter saídas, não muito amplas. O fio da Ariadne não está desfeito. Seria a morte do sonho, a agonia de ficar preso ao presente. A solidão é o cais dos contrapontos e não a negação dos outros.

 

 

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2 Comments »

 
  • Raquel Muniz disse:

    Segundo Drummond, todo ser humano é um estranho ímpar. Há uma necessidade premente de se ficar a sós, acredito, a fim de desviar o olhar de fora e tentar enxergar o que vai por dentro. É tarefa fácil, em um mundo de estímulos tamanhos -onde o urgente não deixa espaço para o que é realmente importante-, se perder de si, e não conseguir compreeder o que nos faz tão singulares. Um texto como este é sempre um alerta oportuno: – É preciso fazer calar o vozerio. Deixa calar o vozerio…

  • Raquel

    O poeta tem muita sabedoria. O silêncio traz encontros e sossegos. Não se pode é ficar isolado ou semear deconfianças. A solidão é uma forma de se colocar no mundo, em momentos que pedem escutas e serenidades.
    abs
    antonio

 

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