A solidão na velocidade dos sentimentos efêmeros

A velocidade dá o tom da vida contemporânea. Não adianta esticar a preguiça, esconder o corpo, apelar para o aconchego do abraço. Tudo tem quer ser resolvido com rapidez. As inteligências artificiais demandam acumulação, respostas imediatas e garantia de sucesso. O mundo do capital escorrega, mas supera contradições, permanece ativo. O assédio das utopias não consegue desmontá-lo. Toca na competição, arruma aliados, promete reviravolta. Não conta com a simpatia de todos. Há desconfianças profundas. Não se desconcerta de vez. Possui suas apelações, não cessa de inventar produtos e arquitetar ilusões. Ninguém vive, apenas, do real, do que vê. A medida da idealização é anunciada, com ajuda constante dos meios de comunicação.

Afastar-se do vaivém configura admitir a companhia da solidão. Nem todos a suportam. Preferem o movimento das multidões, os discursos dos ídolos, os disfarces das formas. O importante é construir os enganos. Uma viagem no facebook, uma consulta ao google, um papo extenso e vazio no celular mascaram a angústia, distraem. A sociedade das mercadorias forma suas verdades, pois precisa se multiplicar  na parceria com o consumo. A solidão atrapalha, traz recolhimentos, atiça pensamentos críticos. O mundo da reflexão importuna quem concentra coisas e coleciona espelhos.

Há argumentos poderosos. Somos animais sociais. Não há  razão para isolamentos, para se esconder do cotidiano. No entanto, a solidão é um ponto de partida de fortalecimento das convivências e de análise das inutilidades que tanto alucinam as pessoas. Como expandir a imaginação sem se aceitar ou viver situações de fantasias  estranhas? Se tivermos, apenas, respostas ligeiras para o imediato, como conviver com as dores agudas e os lutos prolongados? O tempo faz suas curvas, nem sempre agita sentimentos, pede escolhas. A velocidade tumultua os desejos de contemplação e cultiva a superficialidade. A pressa opta por olhares pálidos, pela negação das dúvidas, por regras pouco flexíveis.

As confusões configuram-se e arrastam a autonomia. O apego e o fascínio pelas tecnologias predominam. Por isso, a corrida para a compra dos objetos da informática, o uso constante das últimas novidades. Os preconceitos continuam, as redes sociais não são cenários, apenas, de descontentamentos. Há aplausos, também, para o que mantém autoritarismo e consagra tradições conservadoras. Cria-se uma vestimenta para não deixar que o diálogo busque alternativas e fuja dos contrapontos. O mundo do homogêneo compõe-se de mentiras, pois apaga as dissonâncias e enche de cores a opressão do totalitarismo. Os tempos se firmam, então, construindo hierarquias, desprezando o esforço de refazê-los.

A cultura se compõe na história, porém sua permanência não é única. Se a repetição traz seguranças, é preciso duvidar dos seus objetivos. A velocidade não é neutra. Elogiar o efêmero fabrica pouca atenção para as chamadas internas, joga o olhar esperto para fora. Como podemos conversar com os outros, se não suportamos  intrigas, vacilações, projetos? A solidão facilita a procura do outro numa perspectiva de celebrar a diferença. Ela desmancha a sociabilidade quando festeja o egocentrismo e se despede da complexidade do humano. O efêmero não é a medida única do sentimento.

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