A solidão não está na gaveta do quarto escuro

As multidões conduzem a história ou são conduzidas pelas artimanhas políticas? É uma questão que não sai da contemporaneidade. A população cresceu, exigindo novos modos de conviver e se relacionar com as armadilhas da existência. A aceleração é grande e  o instante da reflexão é curto. Longe estamos da época de Descartes ou dos banquetes de Platão. Há uma urgência que entra no sangue. Embriaga os sentimentos. Nem os filósofos escapam. É difícil meditar, porque há muita coisa a fazer e o assalariamento do trabalho produziu outras necessidades. A modernidade tirou o sossego das tradições e assanhou a pressa. Quase não sobram momentos  para formular as perplexidades.

Tanta mudanças, indústrias por toda parte, saberes espalhados e invenções interferindo na intimidade dos sujeitos trazem agonia. Por isso que a concepção de progresso não se sustenta. Não dá para observar uma linearidade intocável. O passado não representa decadência, nem tampouco uma negação do presente. Os entrelaçamentos devem ser pensados. As guerras mundiais se fizeram com violências extremas. Para que servem, então, as tecnologias? Elas simbolizam qualidade de vida ou as astúcias de um  poder mais voraz? As reviravoltas não consolidam otimismos, porém podem avisar manutenção de descontroles e falta de solidariedade.

A solidão não se desmanchou no meio das multidões. Ela ganha formas. Chama atenção. Como num espetáculo como mais de 15 mil pessoas me sinto estranho ? Como conhecer os vizinhos, num edifício que mora mais de 50 famílias? Onde ficao afeto se o relógio atiça para cumprir horários e acumular grana? No final do dia, o quarto escuro, o lençol colorido, o travesseiro antigo ajudam a rememorar as passagens do dia. A solidão se prolonga, ela não  está presa àquele espaço diminuto, ela estende-se pelas estradas da aldeia global.Portanto, é um desafio construir convivências numa sociedade que requer ruídos e produção. A superficialidade torna o sentimento uma experiência complexa e efêmera.

As perguntas atormentam as vacilações dos encontros e das perdas. É possível livrar-se de uma situação amorosa e entrar em outras sem magoar ninguém? Digo isto como mero exemplo das múltiplas perguntas que a gente se faz quando, abruptamente, se dá conta que alguma coisa vai começar, mas só a expensas do que vai terminar (Carlos Fuentes). Os romances tentam responder o desfazer de eternidades românticas, de corpos que não escondiam a nudez, imaginam situações, mostram  a incapacidade humana de testemunhar felicidades cristalizadas. Leia Diana de Carlos Fuentes e observe o quanto a dor da surpresa fere o futuro.

Tudo tem singularidades. A cultura não é uma coleção dos instrumentos e da contabilidade das lojas comerciais. Ela permanece porque não consegue fechar as lacunas. Sobrevive costurando insatisfações, com as veias abertas e os gritos reclamando que as sociabilidades se esfarelam. Há jogos para amenizar medos e perigos. As fantasias eletrônicas prometem distrair a solidão. Há muito desenganos registrados nas virtualidades dos facebooks e nas ligações dos celulares. Ouvir os outros pode configura pesadelos. Muitos preferem entregar-se aos dramas das TVs e esperar que a incerteza se evapore.

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11 Comments »

 
  • karla vieira disse:

    Como o Renato Russo disse: “Digam o que disserem o mal do século é a solidão, cada um de nós imersos em sua própria arrogância esperando por um pouco de atenção.

  • Karla

    Pois é. Tanta gente no mundo e a sociedade numa carência geral. É um desmantelo.
    abs
    antonio paulo

  • Matheus disse:

    Professor, este seu texto me acordou inquietudes, um tanto desconexas, mas talvez plausíveis. Lembro de outro escrito, no qual o senhor dizia ganhar tempo contemplando… Insisto em me atiçar a memória pela falta que isto nos faz. Deveríamos ganhar mais tempo. Não ganhar no sentido de acumulo ou lucro, senão ganhar o instante, vivenciar alucinações, reflexões, amores, dores… Ambicionamos a efemeridade dos sentimentos, quiçá, para que não tenhamos preocupações com as conseqüências de sermos, todos, demasiadamente humanos e, portanto mutilados, inacabados. Tudo isso se apresenta cotidianamente de forma tão naturalizada, que – para a maioria – parece mais útil jogar a sensibilidade na lata do lixo reciclável, a se arriscar, mergulhar na profundidade da emoção.
    O medo da totalidade deve estar presente, até no mais benigno dos pensamentos de coletividade. A utopia nunca é sonhada por todos, mas as descrenças são degustadas por aqueles que elegem o caminho da meditação. A solidão assusta, qual será seu tempo em nossa época? Em um presente repleto de vazios, avistando um futuro construído em promessas, que rumo tomar quando nos damos conta da importância da imprevisibilidade em nossas histórias?
    Saramago disse certa vez em entrevista: “Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória”. Lamentável, é que por muitas vezes pensemos como os personagens de G. Orwell, para quem “o passado está proibido” e, consequentemente, a humanidade também.

  • Flávia Campos disse:

    Antonio,
    Sua Palavra, durante toda a semana, nos instigou a refletir sobre as nossas próprias limitações … Principalmente em compreender, em pensar a vida ao nosso redor (ou a nossa frente?).
    Não é fácil, até porque o pensar não é um ato de monólogo… É sim de diálogo. Ele nomeia algo para alguém.
    Ao falarmos para o outro, o co-responsabilizamos por uma convivência solidária, por um reinventar de sentidos, por nos ajudar a suportar as incertezas e sair da passividade, por transformar a realidade…
    Obrigada Antonio, pela possibilidade cotidiana de dialogar, de nos colocar como criadores de um mesmo discurso, de poder compartilhar pensamentos próximos, de buscarmos, juntos, o desafio de “construir convivências numa sociedade que requer ruídos e produção”.
    Por nos alertar sobre os medos e os perigos, mas também por nos permitir tomarmos consciência da nossa “incapacidade de testemunhar felicidades cristalizadas.” E de percebermos o nosso potencial para a superação, para a reinvenção da existência…
    Por nos possibilitar observar o que começa / o que termina, ou melhor, o que se transforma, o que se recompõe, o que se despe/ se veste/ se reveste… Ainda “que a dor da surpresa possa ferir o futuro”…
    Tudo isso não é a dor da alma a pedir passagem?
    Ou ainda, a solidão insistindo em sair da gaveta, em sair do quarto escuro para fechar lacunas e abrir possibilidades do ser humano se reinventar / se reencontrar , se recompor dia após dia.
    ???
    Bjs
    Flávia

  • Bruna Maria disse:

    É triste ver que no mundo em que vivemos até mesmo os sentimentos acabaram por perder sua essencia. Hoje quando se fala em dor ou perda, as pessoas parecem não se importar. Almoçamos vendo noticias sobre mortes, crimes e isso nem abala a maioria das pessoas. A compaixão pelo proximo, aonde fica?

  • Emanoel Cunha disse:

    Somos regidos por um complexo de sociabilidades. Como tal, definí-las, muitas vezes, torna-se difícil, no entanto, com a possibilidade de criar novos quadros de pensamentos. É perceptível que configurá-las de acordo com seu tempo, exige-se de bastante atenção, para que através do passado, juntamente com o presente, possamos a compreender e questionar que somos imersos em diversas culturas e vivemos em constantemente processo de aprendizado, e ao mesmo momento que a reinventamos com suas ideologias e paradigmas, sentimos carência de construir e moldar a nossa própria história.

    Abs professor

  • Emanoel

    A complexidade da vida é um desafio, mas podemos nos esconder dela.
    abs
    antonio

  • Flávia

    A conversa ajuda muito. Sem ela, a solidão e grande e o mundo fica deprimido. Você tocou em pontod importantes
    abs
    antonio

  • Matheus

    A velocidade impede reflexões e diálogos.Por isso, o sufoco afetivo é grande. A sociedade se dirige para as mercadorias e exalta o consumo. Isso é danoso. Você boas colocações sobre o tem.
    abs
    antonio paulo

  • Bruna

    Numa sociedade, extremamente compatitiva é difícil ver o desenho do outro.
    abs
    antonio paulo

  • Emanoel

    A solidão é uma forma de estar-no-mundo. Nem sempre, significa renúncia, mas pode ajudar a refletir e tocar para sempre o díálogo com o mundo.
    abs
    antonio

 

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