A solidão não tem moradia fixa e comum

Os sentimentos passam pela história como atores de segunda categoria. Muitos acham desnecessário entendê-los ou observar suas trilhas sinuosas.  Investem na contagem dos fatos extraordinários, destacam as astúcias políticas, mostram os êxitos econômicos. O positivismo continua com adeptos fanáticos ou disfarçados. A história busca uma objetividade que não dá conta dos escorregões. Desenha-se uma linha reta, concebem-se destinos, resumem tudo a um entrelaçamento de causas e consequências. Num mundo repleto de lacunas e frustrações, vende-se um modelo de felicidade que exalta euforias passageiras e fabricadas.

A solidão não possui apenas um único significado, nem tampouco é decreto de um recolhimento definitivo. Não custa lembrar que os sentimentos acompanham as mudanças nas relações sociais. Se o consumo predomina, se a competição toma conta do cotidiano, os amores ganham outras cores e desejam outros afetos. Portanto, seguir as narrativas históricas é não ficar restrito ao que descrevem os acervos e atiçar os malabarismos das sensibilidades. Há lugares e tempos,  permanências e rebeldias, devaneios e perdas.

As multidões ocupam os cenários urbanos. Cada acontecimento marca sua presença e o seu poder de pressão. Estar no meio da multidão, abraçado com seus ruídos não é sentir que a vida flui com as certezas da maioria. Muitas vezes, a solidão se inquieta quando nos vemos cercados pela mesmice, por escolhas que lutam  pela vitória da quantidade e anulação da dúvidas. Não é incomum a retirada. Saímos da agitação, na procura de um silêncio que traga a reflexão. A solidão dialoga com a desconfiança e se confronta com a pressa.

Inventamos e organizamos dominações celebradas pelas culturas como uma derrota da barbárie. Certas narrativas parecem registrar o desvendar de mistérios e o desnudamento de mitos. Tudo isso possui largo espaço de divulgação, engana, adormece. Contemplando o vivido não faltam genocídios,  cinismos, desigualdades.  O aqui e o agora não  deixam de reafirmar o que deveria ser superado pelos voos da razão. As épocas se olham, às vezes, com tivessem a mesma forma. Os estranhamentos desconhecem que o passado sobrevive e incomoda.

A solidão é a identidade do indivíduo? Nunca estamos nus, verbalizando palavras que nos pertence com tesouros. Nos esconderijos cabem muitos fantasmas. O que dizer das mídias, das virtualidades, das amizades do facebook? Há uma conversa que se prolonga independente da presença física. A imaginação nos traz os outros, desfaz situações, constrói alternativas. A solidão redefine lugares, não é sinônimo de limites fixos. Ela é um campo de observação do outro e ,sobretudo, a possibilidade de alargar o sonho.

O estar no mundo arquiteta cartografias que não têm fim. Colocar um ponto final na história é confundir-se com os cansaços e consolidar a preguiça que ajuda minorias a jogar políticas de submissão. Afastar-se do mundo é uma ilusão que permite transgredir, mas não significa deixar suas incompletudes. Os afastamentos se misturam com as fantasias. As fronteiras são criações para compreender que os sentimentos são diferentes, contudo fundamentais. Mesmo fundando os ritmos da solidão nos tocamos com os encontros da vida, pois não existiríamos sem o perfume do outro.

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