A sombra das imprecisões mundanas

A sociedade cumpre seus rituais. Alguns ganham espaços imensos. Quando se vão , deixam saudades. Como tudo acontece, de forma rápida, já se prepara a vida, para outras comemorações. A quarta-feira de cinzas anuncia a semana santa, com seus ovos de páscoa. Não mais aquela fixação nos sacrifícios. O comércio lucra, com a vontade dos consumidores. Agora, a cerveja não é a porta-estandarte. A religião assume lugar de destaque e uma convocação para pensar Cristo e sua generosidade. Tradições se foram, tristezas se desbotaram, mas as missas continuam na sua missão secular. Muitos não se tocam com o momento, mesmo se dizendo católicos e portadores de fé inabalável. Tudo se confunde, tem o perfume do vadio.

O mundo pós-moderno é agitado. Convive com uma diversidade de práticas e opiniões ilimitadas. Basta uma olhada na internet. Violências desenfreadas, Kadafi sacrificando seus inimigos, cobranças políticas não realizadas e festival de filmes sobre as revoluções asiáticas. Difícil saber aonde ir. Quebraram-se muitas certezas, com as mudanças nos comportamentos e nas regras. É o processo histórico, dizem alguns. Há solturas que criam levezas. Nada mais energizante do que a alegria, acompanhada de desejos de solidariedades. No entanto, é preciso olhar atento e perceber que as ordens são substituídas por outras. Há deslocamentos. Eles não se dão à toa.

A conexão mundial  nos puxa para curtir as novidades. Despontam produtos, garantindo noites sem insônia, e técnicas para manter o corpo sempre jovem. A sede do consumo não combina com a reflexão. Vale o impulso. Quem se amarra nos contrapontos ? As dissonâncias incomodam, porém a meditação é para poucos. É como entrar na folia. Muita contemplação provoca desânimo. Melhor é ficar, em casa, adormecendo na frente do programa do Gugu. Aquilo que ajudaria, na paciência, termina se tornando exótico. Nos classificados, há cursos intensivos, sedutores, com soluções atraentes.

O final  dos grandes acontecimentos mobiliza alguns instantes de sossego. Nada para cortar o efêmero reinante, na feira dos descartáveis. No desmanche das ressacas, arquitetam-se arrependimentos. O mundo enfrenta um tribunal. Os anjos são lembrados e as orações são feitas. As fantasias ficam nos armários. Podem ser abandonadas. Não confie nessas viagens tão superficiais. As relações se repõem. A vida não é um castelo encantado, porém merece memória para sobreviver. Sem lembranças, o travesseiro fertiliza espinhos e as noites se desfazem antes das madrugadas, como a nuvem de Magritte.

Os dias passam. Possuem uma contabilidade compatível com a cultura de cada um. O calendário da Líbia não se aproxima do Carnaval do Recife. Na China, a conversa é outra. Nas aldeias indígenas, a diversão flutua com cores diferentes. Temos que nos equilibrar dentro dos sufocos contínuos das ameaças. A instabilidade não se vai. Ela é instituinte. Livrar-se dos incômodos é acabar com os caminhos da história. Os surrealistas tentavam escutar os clamores dos inconscientes. Revelaram estéticas deslumbrantes. Contudo, muita magia resta escondida. Talvez, sejam perenes o desencontro e a busca. Há enganos desde os tempos primordiais. A harmonia se cola com as desconfianças do coração.

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4 Comments »

 
  • Telma Lúcia disse:

    O carnaval passou, com ele a euforia dos foliões, as energias renovadas para uns, para outros o adeus a ilusão.
    Parece até que houve umas férias da leitura sobre os artigos nesse blog, porque vim acomapnhando e desde o dia 4 até hoje dia 9 não houve comentários, até mesmo das pessoas mais assíduas que marcam sua presença na troca do conhecimento e na construção de um bom diálogo. Mas o criador permaneceu fiel ao seu público, lembrando os velhos carnavais; pois é Prof. muita coisa mudou, não somente as machas carnavalescas com um tom romântico, mas também o comportamento dos carvavalescos. Abraço e vamos aguaradar a Páscoa!

    Abraço
    Telma Lúcia

  • Telma
    O Carnaval muda, mas é marcante. Traz uma pausa. Mas a vida continua e a complexidade não cessa de aumentar.
    abraço
    antonio paulo

  • Monique disse:

    Já ouvi falar muito bem dos seus textos aqui publicados, Antonio Paulo, e essa é a primeira vez que acesso para conhecer.
    Estou maravilhada com seus textos brilhantes;sua visão de mundo e interpretações assemelham-se muito às minhas.
    Suas colocações são bem dosadas e sólidas.
    Obrigada por oferecer o prazer de leituras tão gratificantes e enriquecedoras, como este texto.
    Desde já tens uma nova leitora conquistada!
    Parabéns e obrigada!

  • Monique

    É sempre uma alegria uma visita tão prazerosa. Grato e apareça sempre.
    abraço
    antonio paulo

 

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