A tela mágica do cinema continua sedutora

 

A morte de Elizabeth Taylor aflora lembranças de uma atriz polêmica, mas com desempenhos marcantes. Fez parte de uma geração que se despede das telas, pelas pressas do tempo ou das circunstâncias da história. Muitos ficaram desconfiados com o futuro do cinema. Pensaram que a televisão assumiria o monopólio das imagens. As curvas do sofá evitariam saídas, desgastes financeiros e aproximariam as famílias nos prazeres mais comuns. As tvs alcançaram sucessos. São cortejadas pelos fãs. Sua agilidade é elogiada e suas transmissões se espalham pela aldeia global. Seus artistas possuem salários majestosos, quando bem acolhidos, e  lucram com exposição constante na mídia. Há revistas especializadas, com fotos e fofocas para todos.

O cinema, porém, não desapareceu. Retomou sua força inicial. A construção de shoppings centers favoreceu a chegada de mais investimentos e a renovação tecnológica. O mundo da sétima arte ganhou voos e se apresenta de vestes novas, para ser consumido por um público entusiasmado. Há, sempre, uma diversidade de temáticas, algumas intrigantes. No entanto, os grupos sociais também não ficam na homogeneidade. Os sucessos desfilam com adesão da maioria. No Brasil, os filmes sobre Chico Xavier encantam e enchem as salas. Os seus lançamentos recebem cuidados especiais e disputam bilheterias com a sequência da Tropa de Elite.

Os recursos técnicos atraem as gerações mais jovens. Não há preocupações sistemáticas com o conteúdo. O importante é a esperteza da produção e das aventuras exóticas dos personagens centrais. O conforto é fundamental. A temperatura ambiente exige casacos ou namoros aconchegantes. Forma-se um mercado. Sorvetes, doces, chocolates, pipocas, refrigerantes, modas. Não bastam as astúcias dos efeitos especiais. A plateia se nutre de lanches ou  alguns aproveitam-se  para dar uma cochilada homérica. Esquecem a tela e mergulham no repouso. Ingresso pago, o resto se resolve com o complemento das ansiedades mais urgentes. A sala de espetáculo é também uma moradia. Duvida?

Se consumir é viver, com diz a propaganda, há os que, no escurinho, refletem um pouco sobre a vida. Os filmes não se limitam a montar cenários de violências ou dramas adocicados. É claro que o público, no geral, gosta de descansos, não quer atiçar a cabeça com problemas paralelos. O corre-corre é cotidiano, portanto chega de naufragar em oceanos de dívidas e de desesperos ! Nada de debates, mistérios, casamentos desfeitos. O importante é a diversão mais boba, deliciosa como mascar um chiclete e paquerar sem compromisso. A semana de trabalho tira o juízo e adoece, mesmo que haja resistências. Muito esforço, para ganhos mínimos, reclamam.

A multiplicidade promete opções. Existe uma minoria que prefere meditar, encontrar-se com os descompassos da vida e ficar flutuando nas suas soluções. Sai do filme, muitas vezes, arrasada. Os exemplos não faltam. Querem se incomodar, balançar a gangorra? Não deixem de assistir a Frida, com Salma Hayek. Frida foi uma pintora mexicana do século XX. Sintam suas dores, seus enigmas, sua coragem. Viajem na estética. Não se acanhem diante de tanta beleza. A sensibilidade se espreguiça. Não precisa de efeitos especiais, de bombons, nem coca-cola. Compreendam que os ruídos tocam o coração, quando têm consistência. As dissonâncias não significam labirintos sem saídas.

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7 Comments »

 
  • marcio lucema disse:

    Antonio,

    O filme é fantástico e apresenta dois grande pintores mexicanos:
    Frida e o muralista Diego Rivera.
    Para mim o grande defeito do filme foi o inglês…
    “Frida” em espanhol soaria bem melhor…
    mas o mercado…

    abraço
    marcio lucena

  • Márcio

    O filme ganharia muito com sua sugestão. Já pensou a dramaticidade ?
    abs
    antonio paulo

  • Michel disse:

    A observação dos sentidos de nosso tempo e sua relação com esta arte é importante por demais Antônio, aqui você sinalizou muitas delas, é dai a relação tão intima da arte com a vida, há quem duvide deste diálogo, mas suas palavras aparecem como um discurso que anuncia o fenômeno de forma tão sutil e impar.
    Parabéns pela nova roupagem do Blog, ficou muito legal.
    Abraço, Michel

  • Flávia Campos disse:

    Antonio,
    Penso, junto a você, que “o cinema não desapareceu, e sim, “retomou sua força inicial.”
    Mesmo sem o aconchego do “casaco” de outrem, a grande tela ainda enfeitiça, principalmente quando consegue combinar “beleza, sensibilidade, consistência”.
    Frida é um filme de superação, de coragem, de transgressão, de amores, de ousadia e também de muita dor e luta. Toca-nos o coração e nos deixa marcas contrastantes de uma mulher que fascina em sua rápida ascensão ao mundo da arte, suas paixões extremas, seu sofrimento cotidiano, seu espírito livre, revolucionário,encantador.
    Pois é Antonio, o cinema está aí para comprovar que mesmo no frio e no escurinho podemos sentir e pensar sobre a vida. Até porque a luz da reflexão e o pulsar do coração transcendem os espetáculos cinematográficos. Mas o cinema, com certeza, continua (e continuará) fascinando, emocionando e seduzindo as várias gerações.
    Que tal fomentar o “cine debate” com a estudantada da UFPE? O que começa no Blog, e agita nas aulas de História, pode muito bem continuar da “telinha” para o “palco da vida”.
    Pense com carinho nessa proposta e conte com a turma da DAI/PROEXT para lhe ajudar na realização.
    Bjs
    Flávia

  • […] Leia mais: A tela mágica do cinema continua sedutora @ A astúcia de Ulisses […]

  • Flávia

    É sempre bom discutir cinema, mas há pessoal do CAC que cuida disso. Posso , eventualmente, colaborar.
    bjs
    antonio paulo

  • Michel

    Grato pela sua presença. Conto com sua boas reflexões.
    abraço
    antonio paulo

 

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