As tragédias:permanências, perdões, disfarces

A história não é nada uniforme. Surpreende. Não há como exercer controle absoluto sobre os fatos. Com toda tecnologia sofisticado cercando nossas vidas, as incompletudes continuam e os desejos atiçam movimentos. Há semelhanças de comportamentos apesar de distâncias temporais seculares. Quem não sabe das festas colossais de Roma, do uso de drogas por várias culturas, das antigas celebrações que cultivavam violência? Não é à toa que se desenham permanências. Temos fragilidades e ousadias, ressaltadas nos mitos e nas representações artísticas. Os sentimentos mudam suas vestes, mas não deixam de trazer suas dores e perplexidades.

A sociedade atual é, extremamente, competitiva. Explora o individualismo e seduz com promessas de acumulação. Não existem, porém, estabilidades. Elas são aparentes. Enganam. Quando acontecem os desmontes, quando a melancolia desfaz as alegrias, a memória se acende. Aparecem as contradições, o humano  dialoga com o passado e observa quantas fantasias foram  criadas, quantas frustrações se construíram. As chamadas grandes tragédias alertam, acordam, promovem solidariedades que estavam escondidas. No entanto, há muito de efêmero em toda agitação que lastima perdas e reparte ações. A sociedade consegue apagar descompassos com uma velocidade incrível.

Todos se assustaram com o incêndio em Santa Maria. Houve suspensão de festas, iniciativas governamentais urgentes, comoção nas redes sociais. As notícias correram tocando emoções. A indiferença foi sepultada. As críticas ao consumo acionaram denúncias. Há vários lugares sem estrutura que recebem espetáculos que acolhem multidões. As fiscalizações são precárias. A tragédia desperta e concentra responsabilidades. O descontrole é perigoso e não está, apenas, nas comemorações. A sociedade, que chora suas dores, incentiva disputas, recupera-se, não aprofunda suas reflexões. A convivência social necessita de ser repensada, para além do momento crucial, para além da solidariedade que se vai e se desmancha.

As obras literárias descrevem tragédias. Elas mostram não, somente, a ficção das palavras, a diversão preparada. A literatura tem conexão com a vida. As personagens de Flaubert, Auster, Saramago, Sartre, Ésquilo articulam-se com sentimentos que se estendem pelo cotidiano. Fala-se em globalização, pois as relações se estreitam. O consumo de objetos e a posse de fortunas internacionais terminam dialogando com misérias, desassistências, cinismos. Há instantes em que as semelhanças costuram perdões, há instantes em que as violências ganham espaços avassaladores. Tudo isso confunde. Muitos se sentem deuses que podem manipular verdades e forjar  ilusões.

As culturas não fogem das ambiguidades. As lacunas não deixarão de afirmar que as possibilidades de mudanças se entrelaçam com as armadilhas e as perversões. Para alguns, a história é fascinante, porque ocupa infernos e paraísos, quebra linearidades, vende progressos. O trágico compõe as travessias de cada época. É quase impossível evitá-lo. No entanto, o cuidado com o outro produz sociabilidades mais soltas e  animadas. A morte simboliza mais do que o fim da vida. Ela nos fere e nos aproxima de forma definitiva. Sobrevivemos com olhares que não se esgotam. Amanhã novas arquiteturas reformarão labirintos e abismos. Especularemos. O mundo não se finda com as promessas escatológicas. Mas elas balançam as expectativas. Não expulsam o poder da imitação.

 

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4 Comments »

 
  • Franz disse:

    É triste perceber o quanto as coisas não são feitas para durar e o quão infantil é a minha geração. Como pode haver mudança com tanta imcompletude, com tanto vazil, com perdas de tantas referências?
    O pior é que não nasci para ser competitivo; para onde devo ir, que caminho seguir, perguntas me vêm a mil. Difíceis respostas, nunca uma só é capaz de atender à demanda dos sentimentos. Lamento e esperança.
    Qual valor que ainda me resta? Seguir ou pôr um fim em tudo?
    Só uma constatação: a solidão é o caminho.

  • Franz disse:

    *incompletude

  • Franz

    As dificuldades são muitas, mas a vida se apresenta para que tomemos parte dela. Nem tudo é descompasso. Há espaços de alegria e de união. Depende das escolhas.
    abs
    antonio

  • Elânia disse:

    A trajédia de Santa Maria causou muita comoção. Uma comoção superficial, pois não poderia ser diferente já que a sociedade está as margens do que há de mais humano: o amor.

 

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