A travessia da solidão e o meio do mundo

Quando os silêncios se tornam plenos, os recolhimentos anunciam a subjetividade em celebração. É hora de contar as palavras, acionar a magia de falar com o mundo, apenas com os ruídos dos sussurros. Não é uma desistência de rebeldias. O silêncio não é renúncia, mas transformação que lembra os personagens mais enigmáticas de Macondo, de García Márquez. Esconde-se para se escutar, sem assombrações, traduzindo as cores e ouvindo a música repetida com monotonia. Dá-se o encontro, então, com a possibilidade maior: saber que a solidão é uma forma de abertura para o outro, com o cuidado do olhar mínimo.

A solidão pode significar, em muitas ocasiões,também,o império da dor e da perda. Surge o inconsolável, o que não tem explicação. Firma-se  o desejo de  onipotência  delirante. É tempo de fuga, de lidar com o insuportável, com o absurdo, com as geometrias complexas do artista holandês M. Escher(acima). A sociedade parece viver, então, sob uma neblina definitiva. Diminui a luminosidade e a cegueira não é mesma dos primeiros poetas fundadores do mundo. Arrasta-se o passado, na sua memória mais pesada. A desilusão costura o futuro e adormece as tentativas das ousadias criativas.

Assim, os sentimentos tocam seus ritmos, porque a vida não é solta e tem amarras. Nós é que queremos defini-la. Se inventamos as palavras para nomear as coisas que contemplamos, também convivemos com desenhos mudos e páginas de brancura exemplar. O vazio absoluto nunca se concretiza. O risco desalinhado substitui a arquitetura sofisticada, o abandono, a paixão mais dilacerante. Piscar de olhos, pensamento humano, asa de anjo: que seria bastante veloz para interpor-se entre a pergunta e a resposta, separando uma da outras? ( Thomas De Quincey). A quem pertence os enigmas que se voam sobre a história desde as desobediências de Prometeu?

A relatividade nos acompanha, porém não impede a transcendência. A vida não se  faz sem deslocamento. O  jogo do esquecimento acorda as lembranças, sem que haja precisão de momentos, nem horas marcadas pela fatalidade. Há uma gratuidade que desafia e surpreende. Ela é que nos traz a ansiedade de descrever destinos. Com certezas, o mundo seria repleto de travessias sinalizadas. Com dúvidas, o mundo não tem uma geografia uniforme, assanha vulcões e cava abismos. As linguagens são inundadas por adjetivos, numa busca de compreender a agonia das formas e suas qualidades. Visualizam-se fundamentos, onde correm fantasias armadas de brincadeiras efêmeras. Por isso, os dogmas retorname sossegam corações inquietos.

A sociabilidades diverte e converte. As vestes protegem e desnudam. Entre a partida e a volta, a história se compõe e introduz as narrativas das experiências. Quem leu a Metamorfose, de Kafka, não deve ter ficado impassível. O sofrimento humano é vago. Move solidariedades distantes e indiferenças cobertas pelo mesmo lençol. Por isso, diz Italo Calvino, o justo emprego da linguagem é, para mim, aquele que permite o aproximar-se das coisas (presentes ou ausentes), com discrição, atenção e cautela, respeitando o que as coisas (presentes ou ausente) comunicam sem recurso da palavra. É uma medida, uma magia ou um estar-mundo, fluindo o seu instável  sentido?

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8 Comments »

 
  • Gleidson Lins disse:

    Silêncio, solidão, sentimentos, relatividade, sociabilidade. Nós, individualmente, temos nossas próprias definições e reflexões sobre cada um deles. Como dito no texto, “inventamos as palavras para nomear as coisas que contemplamos” ao mesmo tempo em que “convivemos com desenhos mudos e páginas de brancura exemplar”. Penso no dualismo, na ambiguidade das palavras que destaquei. Como o sentido delas muda conforme a situação…

  • Gleidson

    O mundo de dentro dialoga com o mundo de fora. Assim, vamos escolhendo nossos traços e fantasias.
    abs
    antonio paulo

  • Flávia Campos disse:

    Antonio, as imagens e as palavras de hoje ressignificam a travessiaa da solidão para além da dor, da perda, das amarras… Elas nos permitem enxergar o “silêncio”, não como uma “renúncia” do estar no mundo, mas principalmente, enquanto transformação/transcendência…(…)
    Ainda bem que, enquanto soubermos acionar a “magia de falar com o mundo”, “o vazio absoluto nunca se concretizará”.
    Grata
    Bjs
    Flávia (a partir de hoje, mais silenciosa por causa da “reta final” da dissertação)
    !!!

  • Flávia

    A solidão tem muitas faces e sempre é diálogo. Mesmo que juntemos nossos silêncios e façamos um balanço dos significados da vida, a travessia se dá com muita atenção e cuidado.
    bjs
    antonio paulo

  • Cristiano Cezar disse:

    Antonio,

    Muito bela a sua reflexão sobre o silêncio e a solidão. Esse silêncio funda a linguagem, pois não haveria linguagem sem o silêncio a ser rompido, fundante. Silêncio que fala, pois não é apenas uma mera recusa à fala, porém, uma forma de dizer, de externar codificadamente aquilo que os labirintos do nosso âmago esconde, retém, protege. Uma proteção em relação às agruras da realidade que se torna insuportável, avassaladora, por vezes enigmática e incompreensível. Como Italo Calvino aponta, “na verdade, mesmo o silêncio pode ser considerado um discurso, enquanto refutação ao uso que os outros fazem da palavra; mas o sentido desse silêncio-discursivo está nas suas interrupções, ou seja, naquilo que de tanto em tanto se diz e que dá um sentido àquilo que se cala”. O nosso calar, portanto, também é constitutivo do sentido, é parte integrante da linguagem desse silêncio-discurso, como você mesmo, Antonio, nos presenteia, “o silêncio não é renúncia, mas transformação”. Transformamos o mundo através do nosso silêncio. Isto, talvez denote uma abdicação, uma renúncia, uma fuga, mas, o silêncio ensurdecedor inquieta o âmago do interlocutor, o faz refletir, o impele a pensar, a perscrutar a sua memória, a menos que não haja sensibilidade, e, em não havendo, é mais sensato permancermos em silêncio.

    Abs,

    Cristiano Cezar.

  • Cristiano

    Gostei de suas observações e espero que continuemos nosso diálogo. O silêncio é um ruído que se disfarça, nem por isso deixar de citar suas experiências. Grato pela visita afetiva.
    abs
    antonio paulo

  • Flávio disse:

    Antonio Paulo,

    Quem sai aos seus não degenera…

    A leitura de Cora Rónai é quase sempre uma coisa enfadonha, mas essa crônica dela é de primeira grandeza.

    O “fundo do poço” dela é também um labirinto de solidão.

    No Fundo do Poço Cora Rónai)

    O fundo do poço é igual à boca do poço, só que é diferente. No fundo do poço tudo parece continuar na mesma. Os dias se sucedem, os problemas e os livros na mesinha de cabeceira se acumulam, as contas chegam, o elevador para para manutenção, chove e faz sol como a meteorologia é servida. A aparência de normalidade é tão angustiante que dá vontade de gritar. Para quem está no fundo do poço, “normalidade” é um estado que não existe.

    Problemas e contratempos que, na superfície, têm enorme significado, passam a acontecer num universo paralelo, sem substância. No fundo do poço nada tem importância além do que realmente importa: a pedra no peito, o medo de pensar, o pavor do silêncio, a ausência de sinais de vida verdadeira.
    * * *
    O ar é pesado no fundo do poço, mais ou menos como a água que, em mergulhos profundos, é tão pesada que achata as bolhas de ar. Quem já esteve no mar sabe como é. É por isso que, no fundo do poço, às vezes até respirar dói.
    * * *
    O mundo e as pessoas são diferentes vistos do fundo do poço; os gestos – ou a ausência deles – ganham dimensões às vezes amplificadas, às vezes distorcidas, como imagens vistas à distância num deserto escaldante. Por outro lado, se há uma vantagem no fundo do poço, é a nitidez com que se percebem os sentimentos, nossos e dos outros.

    Amigos próximos que não dão sinal de vida talvez não sejam tão amigos ou tão próximos; conhecidos distantes, às vezes até geograficamente, revelam-se surpreendentemente próximos. No fundo do poço, qualquer carinho reverbera nas paredes e, como um eco, é por elas amplificado; um abraço mais apertado, um olhar que diz “Estou aqui”, um email. O silêncio, inversamente, escorre poço abaixo, como uma gosma gelada, criando dúvidas e distâncias onde, em circunstâncias normais, nada existiria. Mas, eu não sei se já disse, no fundo do poço não há circunstâncias normais.
    * * *
    A vida não para no fundo do poço, mas se torna bastante difícil. Acordar é uma decisão penosa, e muitas vezes inútil: acorda-se na cama para pouco depois se adormecer no sofá. Nos dias bons dorme-se o tempo todo no fundo do poço, um sono pesado e sem sonhos. Nos dias ruins quase não se dorme, porque basta fechar os olhos para que os sonhos se transformem em pesadelos. Os dias bons, felizmente, são maioria.
    * * *
    No fundo do poço o cérebro é, na melhor das hipóteses, um orgão inútil. Não serve para nada. É incapaz de se lembrar de um nome, de um número ou de tarefas a cumprir. Não consegue se concentrar o suficiente para a leitura de um livro, ou para que um filme faça sentido: no fundo do poço, um filme é apenas uma sucessão de imagens desconexas e desinteressantes, incapazes de segurar o olhar.

    Reduzido ao seu nível mais primário de funcionamento, o cérebro serve apenas para executar tarefas simples, como jogar Angry Birds ou subir fotos para o Instagram.

    Mas não me entendam mal: um cérebro imprestável desses é uma benção, porque nos dias em que funciona como deveria, o cérebro é a mais eficiente máquina de lembranças e pensamentos torturantes.
    * * *
    Nada vale a pena no fundo do poço: sair de casa, andar pela cidade, ir ao shopping, criar ikebanas, montar quebra-cabeças. Dizem que exercício ajuda, mas para fazer exercício é preciso chegar à academia, e para chegar à academia é preciso sair de casa – sair de casa sendo, talvez, uma das coisas mais difíceis de se executar no fundo do poço. Até encontrar os amigos é complicado, porque as conversas se tornam tão difíceis de acompanhar quanto a atmosfera feliz que costuma reger tais encontros.

    Viajar quebra um pouco essa rotina asfixiante, mas na verdade não resolve nada, apenas leva o fundo do poço para outra paisagem.
    * * *
    Os gatos sabem o que é o fundo do poço e evitam perder seu bípede de vista. Fazem turnos de colo e de demonstrações de afeto e, à noite, esquecem suas eventuais divergências para dormir todos juntos na cama, formando uma pequena barreira de bigodes contra os maus espíritos.
    * * *
    O fundo do poço tem poder. Quanto mais tempo se passa no fundo do poço, mais tempo se passa no fundo do poço. Lutar contra o fundo do poço é praticamente impossível. Pode-se fugir dele por pequenos intervalos de tempo, com simulacros mínimos de normalidade: acender bastõezinhos de incenso, fazer as unhas, passar hidratante, cortar o cabelo, usar perfume. Não adianta nada, mas despista.
    * * *
    Só se pode ver o fundo do poço com a ajuda da indústria farmacêutica. A seco, o fundo do poço aperta o coração, corta a respiração e vira um buraco negro de dimensões e conseqüências inimagináveis. Um tarja preta bem receitado permite, porém, que se veja o fundo do poço como ele é – como se nos víssemos a nós mesmos de um outro plano, uma outra dimensão. O fundo do poço não desaparece, mas torna-se compreensível, uma esfinge enfim decifrada.
    * * *
    Não se consegue chorar no fundo do poço.

    Abs.

  • Flávio

    Grato pelo reforço. São os vaivéns. Mas tudo sossegado.
    abs
    antonio paulo

 

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