A travessia permanente e múltipla da saudade

O mundo não vive sem notícias. As dissidências, os descontroles, os acidentes são comuns. Não adianta culpar as invenções modernas, o apego desmesurado pelo consumo. Fala-se muito em paz, mas os conflitos nunca abandonam a história. Como estamos próximos, tudo nos parece tocar. A multiplicidade de fatos e ações é surpreendente. Não há limites visíveis. Renovam-se as astúcias e as estratégias de convivência. O equilíbrio é um desejo que não se completa. As marcas das competições e da pressa não saem da vitrine estão firmes no comando da sociedade. Ninguém se livra das perdas. Elas são muitas. Como cultivamos a quantidade, o espaço do desperdício é comum.

Cada um tem sua mania. Não celebramos, apenas, festas familiares ou datas cívicas. O calendário chama atenção pela burocratização da alegria. Ele termina criando emoções encenadas com apuro. Os sentimentos ultrapassam as intimidades mais costumeiras. O vaivém das mercadorias configura excessos e superficialidades, produzindo simulacros de necessidades, fabricando urgências. A cultura se move, mesmo que os disfarces mascarem valores. A história se espreguiça, porém segue trajetórias, se desvia de perigos, cai em abismo, sacode poeiras, rever suas crenças. Somos atores, aventureiros, descendentes de Ulisses e Prometeu.

A sociedade humana sonha, mas não adormece tranquila. Quem não se assusta com os pesadelos? As diferenças incomodam e os laços afetivos se misturam com os interesses. Traçar fronteiras é um risco, definir o indispensável, uma adivinhação. Temos que viver deslocamentos contínuos. Há momento que fluem, velozmente, diluindo identidades que se mostravam consolidadas. Talvez, não existam mais identidades. Já se foi a racionalidade iluminista e sua soberania indiscutível. Sobram dúvidas sobre a importância das escolhas e o medo de perder-se nos labirintos das hierarquias. A complexidade social aumenta, porém os meios de comunicação garantem que as novidades estimulam ânimos e valida expectativas otimistas. Será?

Não é tempo de profecias, mesmo que as estatísticas mitifiquem certezas. O que se fixa é a desconfiança. O inesperado ganha espaço e transforma o dia a dia. A saudade é permanente, pois as quebras e os desmantelos não fogem da vida. Se há individualismos sofisticados, há também envolvimentos como novas questões e objetivos. A morte ampliou-se, num mundo em que os abjetos estão sendo humanizados. Há pessoas que não suportam se desfazarem de nada. Assimilam a lógica da acumulação sem vergonhas. Tratam suas posses com cuidados neuróticos e assepsias esquisitas.

A ameaça da solidão não é uma fantasia vazia. Ela se fortalece no meio da multidão. É uma ambiguidade, possui gosto de amargura, alimenta as indústrias de psicotrópicos. Tanta gente e uma falta de profundidade nas conversas, um desprezo pela angústia do outro, um olhar ambicioso no cofre das riquezas materiais. Envolver-se com o que está próximo, com o que toca na pela, com que modifica o balançar do coração pertence a outra época. A saudade é moradia de fantasmas estranhos e mudos. A travessia não se faz sem outros, mas quando os afetos se fabricam, como negócios, os sentimentos penetram em esconderijos desconhecidos. O cinismo é a cartografia que prevalece.

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