A tristeza de Dilma, as verdades sombrias do mundo

Há notícias que tem destaque reduzido. Ocupam páginas de jornal esquecidas. Passam, sem causar alarde. Gosto de ir fundo e sou pescador dos detalhes. O mundo é vasto, é sempre bom lembrar. As controvérsias não param e as disputas tornam-se comuns e enfadonhas. A sociedade, porém, mantém seus vícios, renova o estoque de máscaras, aposta na força do cinismo. Há especialistas em segurar mentiras e conjugar absurdos. Nasceram sem o pecado original. Consideram-se  no céu ou no paraíso de maçã dourada. Não faltam personagens estranhas, crimes de crueldades chocantes e políticos justificando abandono de partidos. A mistura é um prato que se come cru.

Deixemos as manchetes. Dilma afirmou que há dificuldades para governar. Isso a entristece. Colocou sentimentos e não raciocínios objetivos. Talvez, tenha pensado que o peso da presidência não aumentasse com o tempo. Os escândalos são muitos e se briga por lugares e vaidades. Dilma mantém sua reserva de cidadania. Falam da sua dureza, da linguagem direta das respostas, em contraposição às conhecidas metáforas de Lula. Não se sabe como vai a relação dos dois, como os caminhos políticos se estreitam ou se distanciam.  Afeto se desmancha nas manipulações do poder? Os comportamentos áridos criam especulações ou os elogios suspeitos. Dilma se ressente de muitas coisas. O jogo é longo e as regras perigosas.

Nada como fazer esses pequenos registros. Uma forma de reencantar desanimações. As conversas mudam, as vaidades se multiplicam, a transparência é um artifício. Portanto, visualizar sentimentos e emoções traz certo alento. Quando as denúncias disparam, as expectativas se acedem. Será que dessa vez vamos limpar as mãos e consagrar a dignidade? Rapidamente, o obscuro se alastra. Nega-se o que se afirmou ontem, exalta-se quem admitia ser um corrupto de carteirinha. Perplexidades soltas, novidades bem tramadas, incertezas profundas. Não é à toa que Dilma revele desconfortos.

A aldeia global está na sua velocidade acelerada. No Afeganistão, ocorrem assassinatos constantes, uma guerra que se espalha como uma eternidade cruel. Pai é acusado de estuprar a filha, padres são julgados por pedofilia, motoqueiros continuam na loucura do trânsito, multinacionais planejam fusões bilionárias. O que sobra diante de tantos desacertos? Não há alternativa mais leve para a convivência social? A ferida pessimista causa danos, desmonta desejos e ameaça a quebra de quaisquer verdades. Resta não abandonar a respiração e olhar para outros caminhos.

Por isso, celebro as manifestações de afeto e de solidariedade. Elas devem ser lembradas, porque refazem a vida e movimentam os desejos. Se o comum é o desmantelo planejado, com astúcias sofisticadas, não é ilusão buscar exemplos de sociabilidade fora dos estragos das hipocrisias. Isso existiu e continua existindo. Se o mundo fosse , apenas, a vontade desmesurada dos ditadores, teríamos fechado a porta da cultura, talvez  visitando os territórios do céu ou inferno. O mínimo de entrelaçamento afetivo pode destruir os podres remendos que nos vendem como luxo inusitado. A tudo nos acostumamos, mais rapidamente, do que acreditamos ( Italo Calvino). Portanto, cuidado com o tamanho da queda ou do voo. Suspire. O beija-flor azul ama a rosa vermelha.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

2 Comments »

 
 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>