A verdade tem uma travessia histórica e política

Não consigo ver nada fora da história. Submerjo nos mares de Castoriadis.Mas há uma pergunta que incomoda. Quem faz a história ou se apropria dos  privilégios? Qualquer debate sobre esse tema demanda posionamento. Não sei a razão de se falar tanto em neutralidade. Será que a confunde com a falta ou desprezo por juízo de valor? A história não tem uma fórmula ou um cenário imóvel. O tempo é uma invenção social. Não podemos querer que os gregos da Atenas de Péricles tenham os mesmos sentimentos dos franceses dos tempos de Michelet. As diferenças saculejam os pretensos dominadores das sentenças mais radicais.

A memória mostra que os momentos vividos possuem recepções desiguais. Um soldado que participou da Guerra do Vietnan não pode ser o espelho de um outro que estava presente na libertação da Argélia. Os julgamentos existem, ocupam lugares na história, ensinam, impressionam, transitam. A verdade se conecta com as circunstâncias que a cercam. Antigas verdades  podem fugir, perderem o fôlego, afastarem-se dos livros e dos documentos. Que leitura tenho dos limites do genocídio nazista? Que leitura possuem os sobreviventes daqueles tempos tão sombrios? Portanto, estamos respirando atmosferas de lutas e escolhas.

Aquilo que destrói a sociabilidade é perigoso para cultura. Vivemos o social, ele está envolvido com a história. Parece-me que, acima de tudo, o que estabelece a diferença radical entre o mundo biológico e o mundo social-histórico é a emergência, no seio deste último, da autonomia, ou de um novo sentido da autonomia. Mais uma vez, Cornelius Castoriadis para nos ajudar a percorrer as encruzilhadas dos labirintos. Lembre-se de crenças indiscutíveis e pense se elas conseguirão a eternidade. Aristóteles aceitava a escravidão, a Igreja Católica afirmou que as mulheres não tinham alma, Ptolomeu consagrou a terra com centro do universo. Não precisa ir muito longe. Compare as notícias da semana passada, como as que ganharão destaque   amanhã.

Novamente, a questão dos valores se impõe, pois se a violência fosse aberta e os conflitos universais e intermináveis que espaço garantiria a autonomia política? Destruir o outro traz voos em trapézios nada seguros. Onde buscar justitificativas? Na religião, na filosofia, nos manuais de direito, nas arrogância do poder? Há caminhos e argumentos que se proclamam justos e equilibrados. Muitos transcendem o aqui e o agora e se conjugam com as astúcias das divindades. Uma forma de se evitar o debate terreno, complexo, manchando pelas desavenças do cotidiano. Não somos animais sociais?

Dilma Roussef recebeu elogios da ONU pela sua iniciativa de levar adiante a Comissão da Verdade. Um reforço na democracia, na sequência de outros exemplos históricos. Nossos cenários nem expressaram cordialidades. Aliás, muitos preconceitos persistem e o autoritarismo não cedeu suas forças mais sutis. Não há sociedade sem máscaras. Não cultivemos culpas. É importante que os tempos históricos se entrelacem para que a sociabilidade se amplie e os valores configurem vontades coletivas. Precisamos dar nomes aos limites e renovar o fôlego. Mais do que uma urgência, é uma paciência. Incertezas ficarão. Pior é se esconder no manto da covardia.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

4 Comments »

 
  • DIÓGENES disse:

    Verdade: a minha a sua, a de todos nós. Construção, desconstrução, revelações, ambiguidades tudo isso em pro do sentido que a história vai tomando, enfim onde estar a verdade? Vagueia por ai nos cantos, se configurando em discursos políticos, se enclausurando em igrejas, são múltiplas verdades. Ninguém a encontra, so materializa ela por meio de posicionamentos.

  • Diógenes

    Vamos construindo os contrapontos. E desconbrindo.
    abs
    antonio

  • Emanoel Cunha disse:

    É lamentável ainda termos de presenciar os fatos que são acorbertados pela política militar dos anos de 1964 a 1985 que além de sua autoridade ser defasada, também abusou da história política do Brasil. No entanto esse quadro nao só configurado aqui, como também em outros países da América do sul.

    A comissão da verdade proporcionará novos estudos de grande conhecimento sobre os fatos políticos que permearam por trás dos bastidores da repressão ditatorial militar brasileiro. Contudo, os mandatários dos opressões ficarão impunes. Como é que assim iremos desmascar as questões que merecem ser ressaltadas sobre os personagens que abusaram da sua posição frente a política do nosso passado negro brasileiro?

    Eis a questão… Prof. qual seu posicionamente, diante dessa comissão da verdade?

    Abraços
    Emanoel Cunha

  • Emanoel

    Acho importante reavaliar historicamente as relações de poder. Todos aprendem, discutem e quebram-se preconceitos, os limites ficam mais claros. A sociedade deve olhar para seu passado sem autoritarismo.
    abs
    antonio

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>