A vida dos outros e a quebra contínua da intimidade

Fica difícil diferenciar o público do privado. Já foi um tema de grande alcance acadêmico. Lembro-me dos livros de Poulantzas e Gramsci. Lidos, com profundidade, para fermentar os debates. As dúvidas criavam confusões teóricas. Mas houve épocas onde os territórios do público e do privado se apresentavam, com mais visibilidade. Os segredos da vida íntima eram mais respeitados. A fofoca não tinha o fôlego que goza na contemporaneidade.

Há pessoas que adoram frequentar as páginas dos jornais. Não  podem ver uma vitrine. Encantam-se com a exibição.As crônicas sociais possuem leitores assíduos. A inconviniência anda solta. Isso não é incomum. Fala-se dos amores das estrelas de cinema, da companheira do vice-presidente, dos filhos de Ronaldo , das travessuras de Lula e sua família, das amplas conquistas de Messi e Marta. Assuntos sobram. Seus seguidores abalam até a ordem da internet. A virtualidade atraí e distribui a curiosidade.

O probrama Big Brother Brasil veio para firmar-se. Seu sucesso é indiscutível. Deixa as polêmicas  intelectuais esquecidas e chama atenção para os detalhes da vida. A TV Globo ganha audiências espetaculares. Sacode emoções, provoca intrigas, retoma paixões, cria fanatismos, anima conversas cotidianas. É uma espelho de dimensão complexa, cheio de suspenses , tolices variadas e delírios ou o imaginário da virtualidade?

Trata-se de um império de transferências psicológicas, divertido ou angustiante. Busca-se fama. Formam-se torcidas. Não se teme a fugacidade. Atinge a todas as classes sociais. Poucos conseguem escapulir da sedução colorida que move milhões de espectadores. Mergulha-se num vazio, observado pelas minorias, que alivia dores e desenha ilusões. Uma massificação avassaladora, com suas sofisticações tramadas. 

Para muitos, um bom substituto do Prozac e do Lexotan. Especula-se sobre a intimidade e deseja-se o que for possível na figura do outro. É um espetáculo, no sentido do seu poder de promover relações, atiçar comportamentos, desfilar aventuras. Causa inquietações, no mundo inteiro. Não é coisa nossa, exclusiva. Quem não se mexe com as agonias de certas imagens, as incertezas da sexualidade, as dubiedades das palavras, com a possibilidade de mudar o destino de certos figurantes?

A sua chegada, no calendário das atrações, é alvo de intenso comentário. Há especialistas em Big Brother. Cada episódio será acompanhado, com suspiros e análises freudianas. Por que a necessidade de entrar na intimidade dos outros? Por que se afogar em mágoas que não são suas ? Por que preencher seus sentimentos, com as astúcias que a televisão prepara? Onde está a verdade? Quem despontará no final do programa? Por que tanta ansiedade ? As perguntas tumultuam qualquer reflexão mais organizada. Resta apreciar ou não apreciar.

Muitos fazem do programa um companheiro e vão até as últimas consequências. Uma relação sutil, de escuta de si mesmo. Outros riem e debocham. Não se tocam, com os dramas, ou se escondem nas suas subjetividades. O público se torna privado ou ao contrário. As medidas são múltiplas e as teorias se espalham no campo da comunicação. Os escândalos alimentam a vontade da maioria e despertam simpatias, aparentemente,  inexplicáveis. O mundo se alarga nas suas ambições e vigilâncias. Bigbrotherdizemos? Qual o significado de ser desnudado?

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