A vida entrelaçada nas incertezas e nas impaciências

 

Não há tempo para que as conversas ganhem um ponto final. Sempre são interrompidas, pois as informações transbordam qualquer capacidade de síntese. No entanto, é significativo que falemos das coisas que nos importunam com foco no exterior. Preferimos salientar o que vem de fora e se possível reproduzir o noticiário. Poucos se revelam ou traçam segredos mais íntimos. As fronteiras crescem, porque há o cuidado com as reservas. Há quase um mandamento de se mostrar feliz e disfarçar os desenganos. As euforias celebram, muitas vezes. o poder das drogas contaminadas pelos anúncios das psicoses.

As falsidades correm soltas. Os comportamentos possuem regras e as pessoas não querem perder seu lugar no mundo. Há quem nem ligue que a mentira tenha pernas curtas. O importante é o aparecer. Os sentimentos desfeitos ou pesados escondem-se. Tudo isso expande uma rede de controvérsias. A grande arte é desenhar um riso bem colocado e lembrar os modelos das propagandas. Garantir um lugar na hierarquia  é sempre um construir de exposição para concentrar plateias. O perigo é sentir na margem, sufocado pelas pressões das modas.

Não significa que a sociedade transpire hipocrisias por todos os poros. A quantidade crescente de pessoas provoca desacertos nos hábitos e um descuido com a memória. Parecer que há um balcão de negócios instalado e móvel. Não só nas lojas comerciais ou nos bancos que a sombra da grana se estica. As escolas, os consultórios médicos, os serviços avulsos exigem eficiência, objetividade, polidez fabricada. Então, o ponto já está construído. Explicações montadas e ensinadas em cursos e treinamentos invadem o cotidiano. Os óculos contemplam as imagens aceleradas pela falta de nitidez das ambições.

No corre-corre, o dia anda repartido pela necessidade de resolver algumas coisas. Nem observamos que o supérfluo predomina e que o tempo para se olhar no espelho é também escasso. Quantas vezes nos chocamos com as nossas próprias imagens? As marcas estão no rosto, o calendário assinala festas, mas o corpo não é estático. Ele denuncia tristezas e cansaços. Vemos muita gente, pouco sabemos como elas nos tocam, como os fragmentos afastam as solidariedades e assanham a melancolia. Mas as teorias querem esgotar o sentido de verdade que está esfarrapado.

Os escritos nos trazem esses dizeres soltos. Diante das palavras a multiplicidade nos questiona qual é o  que nos envolve com mais sensibilidade. Será que há uma resposta ou misturamos os afetos estimulando confusões para negar sofrimentos? Infinitas são as dúvidas. Não é à toa que navegamos por mares turbulentos. Nem sempre, elegemos a lucidez. Nem sempre, dialogamos com a paciência. O quebra-cabeça não tem uma configuração definitiva, a história está entrelaçada com inconscientes. O território da vida é solto e a fantasia nos segura..

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2 Comments »

 
  • Elânia Nunes disse:

    Nesse mundo das incertezas o ser humano vai esquecendo sua natureza, sua essência. Natureza que está na história ou que é substituída pela história? ( Ortega). Um questionamento que gostaria que a resposta fosse: a natureza humana está na história, apesar de muitos esquecerem e por isso é necessário resgatá-la. No entanto, não tenho certeza. É o mundo da interrogação.

  • Elãnia

    Construímos tantas histórias que a complexidade é grande. Por isso, as incertezas nos tocam. Nem tudo consegue resposta.
    abs
    antonio

 

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