A vida parece um improviso, sem dribles definitivos

As arracandas de Jairzinho, as armações de Pelé, os passes de Didi e Gérson, a inteligência de Tostão, a dança sincronizada de Ademir da Guia, as defesas de Gilmar, as faltas cobradas por Zico, os piques de Ramon, a esperteza de Romário, os dribles de Garrincha, a categoria de Djalma Santos, a sabedoria de Nílton Santos… São citações. Valem por tratados metafísicos ou obras de arte geniais. Territórios de improvisos, para lembrar que a vida não se enquadra nas ordens das determinações. O lúdico é uma invenção humana ou de uma divindade mágica que brinca de arquitetar mundos.

As dúvidas não cessam. Passaram pelas mitologias, adormeceram nas religiões, atiçaram-se com as ciências. O mundo terminou se configurando na multiplicidade. As opiniões divergem, os sentimentos se chocam, as rebeldias se redimensionam. O que custa é saber se a previsibilidade tem lugar fixo diante de tantos desencontros. Sacudir tudo, para cima, é uma prática. Deixar a poeira baixar garante a segurança emocional de alguns. Metáforas que se infiltram pelos movimentos da natureza, apesar das travessuras técnicas. Uma questão única não dá conta do nosso tempo.

Portanto, somos de muitas falas e de muitas desconstruções. Queremos acertar e temos que possuir a sensação que acertamos. Viver , com o gosto do erro, é um descompasso. A cultura inaugura-se com transgressões, mas pede silêncio e quietude. Não se arruma com o mesmo tom e nem se desenha com o mesmo lápis. As idas e vindas perturbam, porém são frequentes. Por mais remédios que fabriquem, para acalmar os ânimos, a vida pede transtornos, sonhos, assombrações. Por isso, vagamos e batemos em portas escancaradas, tumultuados pelos dissabores de certas angústias.

O drama do desamparo surpreende, mesmo quando nos metemos nas multidões, curtindo carnaval ou discursos políticos. Animais sociais, mas não inimigos da solidão ou dos quartos escuros. Melhor é visualizar a força de não se intimidar com a descontinuidade. O mistério não é um disfarce. Os códigos são infinitos e estamos longe de termos todas as escritas do mundo, pois isso acabaria com a invenção e derrubaria a fantasia. É preciso que a carência persista, para que os seres humanos se motivem.As escolhas estão nas vitrines, nas enciclopédias, nos livros de poemas, na apostilhas dos cursinhos, na majestade das famílias reais, na miséria dos alagados cheios de mocambos, no amor desinibido das novelas de televisão, no calor sufocante das avenidas no verão…

As palavras se ampliam e ameaçam contar tudo, não deixar histórias, nem memórias. Seria um desastre pensar que há um fim, com a sintaxe da amargura e o juízo final, com fogo dos demônios. Imaginar beija-flores, jardins com plantas vermelhas e horizontes azuis, traz um pouco de paz. A eternidade é uma abstração para explicar o tempo.Se existirem os deuses que eles não desprezem o improviso. Sem intervalos, o tempo sucumbe à soberania da depressão. Um jogo de cartas marcadas é a consagração da monotonia. Melhor é se esconder nos improvisos e adivinhar a falência do próximo mito.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

2 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    Antonio, sempre que tenho chance de fugir da linguagem científica (imposta pela dissertação do mestrado) para a linguagem artística da literatura, da filosofia, do romance, da poética, chego perto das Astúcias de Ulisses e sempre me encanto/me assombro/ me reconheço/me desconheço/me amplio/me retraio… Sua linguagem é instigante e provocadora de construções/reconstruções, sempre. Ela explica e “desexplica” ao mesmo tempo. É própria de um saber que nos recria, nos “ressitua” no mundo.
    Você está sempre a nos lembrar que somos capazes de alterar a solidão do eu pelo nós no mundo. E isso é muito bom. É coisa de artista, pois só um artista é capaz de filtrar, do mundo, os seus aspectos mais instigantes, mais relevantes, como o olhar profundo e questionador sobre a vida, a busca da liberdade, as identidades carregadas de poder, de medos, de angustias, de desejos e de sonhos humanos.
    Obrigada por nos permitir “intervalos” e contribuir diariamente para que o nosso tempo não ceda “à soberania da depressão”.
    Bjs, Flávia.

  • Flávia

    Pois é, o difícil é sair para o mundo e a palavra ajuda. Cada um faz seu caminho.
    bjos
    antonio paulo

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>