A vida tem jogos, ensaios e cenários múltiplos

Didi fez uma afirmação que ficou famoso. Citada pelos boleiros com exaustão. Diz o craque da seleção de 1958: Treino é treino, jogo é jogo. Muita sabedoria. Lembra as teorias dos simulacros tão badaladas nas pós-modernidade. Didi jogava com elegância e a bola parecia escrava das suas ordens. Seu passes eram geniais e seu chute, nas cobranças de falta, quase mortais. Sua liderança, no campo, era determinante. Foi um dos condutores do título que consagrou Pelé e Garrincha. Pura arte que encantou europeus que não cansavam de aplaudir os brasileiros.

É interessante estender o dito acima pela vida. Quantas coisas fazemos com displicência, só para o tempo passar. Concentramos energias, para as grandes aventuras, focados nas vitórias decisivas. O mundo está cheio de verdade ornamentais. Aquelas que enganam, mas são coloridas. Acabamos de observar nos festejos recentes muitos ensaios bem tramados, lembrando nascimentos sublimes e religiosidades universais.

No cerne das relações, encontram-se  as façanhas mais ardilosas da sociedade de consumo. Troca-se afeto por presentes, com sorrisos de batons brilhantes. É o momento em que a cultura mostra seu poder de criação. Não é necessários julgamentos éticos. O que vale é a forma e sua soberania. Nada de mergulhar nos subterrâneos. O negócio se conta e se mede na extensão dos juros, nas promessas de abatimentos nos preços à vista, na esperteza dos vendedores incansáveis.

Muitas acham que a sociedade redesenhada edificaria outros rumos. Outros aconselham poupar as esperanças. Tratam de buscar outros exemplos que acenam com práticas narcisistas. Não há culpados. Os seres humanos gostam da especulação, se deslumbram com a possibilidade de acumular e são animais sociais por desejo de sobrevivência. Consagram Maquiavel e consideram Marx um ingênuo. O cenário da disputa embriaga e fortalece, segundo os considerados realistas.

Tema de difícil solução. Muitas perguntas, dúvidas insistentes. Didi se lançava, com toda força, nas emoções do clássicos. Desprezava os treinos matinais e desfilou pelos cenários do futebol com muito respeito. Quem está com a verdade ou quem brinca de formular metafísicas para explicar tão complexas questões? Tudo está dominado pelos impulsos do lúdico? O jogo das palavras já arma labirintos.

O futuro está tão próximo que prever é quase uma inutilidade.Lá se vão cenas e roteiros que agitaram as festas mais esperadas do ano. O espelho para as próximas celebrações está fabricado. O corpo descansa, mas as fantasias não. Costura-se a alegria, com cuidado, antes que ela se desmanche diante de tantas expectativas. Há ritos de passagens que retornam, para alimentar o setor de serviços e lazer. A revolução industrial possuía outro ritmo e pertencia a disciplinas mais visíveis.

O controle assume sutilezas estéticas, alarga o virtual e se sintetiza na engenharia dos minúsculos celulares. A beleza é produto, com código de barras e poder de coisificação. Não se mostra nas galerias de arte, porém gurda-se nas lojas de departmento. Nos domingos, grupos divertem-se olhando as mercadorias e avaliando suas dívidas. Melhor que o sol ardente, é a atmosfera dos supermercados. Talvez, Picasso a escolhesse para cenário do modernismo. Brincadeira.

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