A violência, a colonização, o retorno, a migração

Ninguém esquece a violência que marcou a colonização europeia em várias regiões do mundo. Desde a famosa expansão marítima, houve interesses de dominação, mascarados com missões civilizatórias. Nada mais destrutivo. A instituição da escravidão, a quebra das culturas nativas, a ajuda da Igreja Católica, a concentração de riquezas, tudo ajudou ao crescimento posterior do capitalismo. Garantiu fôlego para as revoluções indústrias, formou impérios poderosos e avassaladores, sem negar o desprezo pelos colonizados e pressão constante por conquistas de monopólios. Foi uma longa travessia que fortaleceu, sobretudo, a Inglaterra e terminou por fabricar teorias preconceituosas para justificar a exploração.

O capitalismo anunciava uma ambição desmedida, enfatizava o fascínio do progresso e estendia o reino das mercadorias. A desigualdade era a marca, na gestão da política, na administração da justiça, no desejo de sufocar qualquer reação contrária. A luta social não silenciou, mas o capitalismo sofisticou suas armas. A sociedade de massas traz ilusões. Os enganos servem de base para firmar princípios e se desviar das crises. Nem tudo teve o desenho do esperado, mas os totalitarismos acenderam ódios desmanchando ensaios de democracia. O peso e a sutileza entrelaçam-se quando é necessário firmar o controle sobre os vencidos.

A Europa caminhou, espalhando militarismos, invadindo territórios, proclamando as vantagens da modernização. Na Ásia e na África, nos séculos XIX e XX, a dor atingia quem recebia os exércitos envolvidos pelo discurso do progresso. Genocídios foram construídos, sob a tutela da razão cínica. Observe o que aconteceu no Congo, as manobras assassinas de Leopoldo II, a sede dos europeus por ouro e minérios valiosos. São histórias de crueldades, apagadas, muitas vezes, pelo saber dos vencedores. Cair nas armadilhas de quem joga fora o passado e promete a redenção, tecendo as teias da humilhação, é acreditar que a colonização tem o rosto da ilustração e da  assepsia civilizatória.

Novamente, o tilintar das mudanças e das continuidades não cessa de ritmar os relógios da história. As tecnologias ditam os andares do cotidiano, porém restam hierarquias e comportamentos que ressuscitam memórias e perdas. A Europa vive problemas financeiros que mostram o capitalismo abalado com desmantelos recorrentes. Não podemos, apenas, enfatizar a grana. Muitos africanos e asiáticos migraram para terras dos antigos colonizadores. Os choques de hábitos e de crenças tumultuam a convivência, num período de escassez visível de empregos. A corda balança e o trapézio dança no ar como um bêbado solitário.

A França é lugar de muitas dessas controvérsias. Há resistências do que insistem na pureza racial. Há misturas, segregação de visitantes, estímulo à volta das práticas fascistas. No entanto, o tempo passa. As outras culturas também ganham espaço, movimentam riquezas, renovam modismos. A pós-modernidade celebra os hibridismos e critica quem os espanta. A globalização alimenta a admiração por invenções e malabarismos que fogem ao padrão ocidental. As novidades se aconchegam aos retornos, os significados não se cristalizam. Diante das falências de planejamentos  ortodoxos, os senhores do mundo inquietam-se e seguram privilégios. Estamos, já, no século XXI. O ânimo possui cores desconhecidas. Por que desbotá-las?

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

3 Comments »

 
  • Amanda Suellen Oliveira disse:

    Ao ler esse texto lembrei-me do Discurso sobre a origem e desigualdade entre os homens(Rousseau).Para Rousseau o homem não tem direito em nada a não ser a sua própria vida. “Aquele que segundo ele veio e cercou um pedaço de terra e disse aos outros que aquilo lhe pertencia foi o que fundou a desigualdade.” Os homens simples e sem compreensão de ordem acataram e fizeram o mesmo posteriormente. Para Rousseau este acontecimento foi o marco entre a ascensão e decadência da humanidade. Seduzidos pelo poder da posse, os homens que antes viviam em harmonia com a natureza começaram a subjugá-la conforme as suas vontades.. A desigualdade já não era mais natural e sim por poder – posse. Classificaram os homens em camadas, criaram regras, normas.

  • Amanda

    O grande problema é que usam as diferenças para justificar as desigualdade. Todos perdemos e a sociedade se individualiza.
    abs/
    antonio

  • Valdemarí disse:

    A sociedade como um todo, mal diz todas as ações nefastas promovidas pela “civilização”. No entanto, venera o modelo de sociedade em que vive. Lembro-me de um comentário da Ministra do CNJ Ângela Calmom, no programa Roda Viva, sobre a corrupção dos Juízes e Desembargadores. O mesmo foi em resposta a uma pergunta de um dos participantes. Ela disse “Não podemos exigir que os corruptos do judiciário paguem suas penas na cadeia, pois a a não prisão de magistrados é decorrente de uma longa tradição cultural no Brasil. A punição já torna-se grande pela aposentadoria compulsória” em outras palavras, juízes são deuses imortais, e somos apenas otários sorridentes,preucupados com o passado e descompromissados com o presente e futuro. Não é que não devemos avaliar os absurdos do passado. Devemos, e devemos nos envergonhar dos mesmos. No entanto, devemos nos envergonhar dos mesmos quando ainda são presente. Percebe-se o quanto a sociedade brasileira é medíocre, pois mal diz às situações de absurdo cometidas no passado, mais aceita as correspondentes no presente. Pois no momento em que vivemos as mesmas é normal. Será absurdo apenas nas próximas gerações. É uma pena por estarmos mergulhados na mediocridade!!!

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>