A violência e o sistema: sustos cotidianos

Seria um delírio afirmar que a violência não se fez presente em toda história. Não é apenas nos grandes centros urbanos que ela se espalha. Há cenas de agressividade e destruição até em lugares considerados mais silenciosos e harmônicos. Ela não se restringe a guerras de grupos, disputas de criminosos, emboscadas de quadrilhas. Há gestos surpreendentes que trazem mortes repentinas e gratuitas. O ato de vingança não responde pelos tantos assassinatos que percorrem o mundo, não escolhendo região e amedrontando quem imagina a paz e o sossego. Os conflitos internacionais, as bombas atômicas, os choques étnicos são exemplos conhecidos.  Porém, iniciativas individuais deixam perplexidades e tensões. Como compreendê-las? Qual a extensão dos seus objetivos?

Nos Estados Unidos, no campus de universidade em Oakland, houve mais um episódio que traumatizou a população da Califórmia. Numa segunda-feira, pessoas morreram vítimas de um atirador.  Não é uma ação incomum. Faz um mês que  mataram três estudante em Ohio. O massacre, anterior, que houve, na Universidade Virginia Rech, deixou marcas. Trinta e cinco pessoas foram assassinadas pelo estudante Seung-Hui Cho. Já completou cinco anos. Acontecimentos que alertam que a violência não tem lugar privilegiado e insiste em manter seu caminho.

Há sistemas de controles bem sofistificados que evitam assaltos, mas há também formas de burlá-los que também se aperfeiçoam, aproveitando-se de tecnologias. Os crimes, acima descritos, estão noutra composição. Eles não mostram manipulações de quadrilhas, nem interesses de grupos ligados ao tráfico de drogas. Surge alguém armado, aparentemente, vivendo algum tipo de surto e executa outras pessoas com se estivesse num videogame. Há explicações psicológicas, levantam-se hipóteses de perdas na infância, de manifestações provocadas por complexos racistas ou desejo de buscar fama. Há os que planejam, arquitetam as minúcia da ação. Apresentam-satisfeitos com os êxitos e as repercussões internacionais.

Tudo isso ganha manchetes,  contudo incomoda e entristece. Além das viagens pelos inconscientes e traumas, não podemos negar que a violência está instituída pela própria forma da cultura se organizar. As desigualdades sociais se chocam com os chamamentos ao consumo. O mundo é uma grande fábrica que exige simpatias com as riquezas materiais e aparência saudável seguindo os modelos das vitrines. Vagas de trabalhos e escolares pedem acirrada competição, expectativas, desmantelos nervosos. Muitas vezes, são promovidas as corridas para o sucesso, o jogo escorregadio do poder que transforma pessoas e requer espertezas cínicas.

Portanto, a complexidade pós-moderna assanha fantasias, se infiltra nas articulações do cotidiano.As crianças brincam nos computadores com jogos esquisitos que ensinam a enganar,  não importando os meios. O tempo passa. Modelos de raciocínio se instalam nos negócios, se estendem pela vida adulta. Não são configurações, apenas, de impulsos individuais isolados, produtos de desencantos patrióticos ou familiares. Talvez, um olhar mais profundo sobre os efeitos e as agonias que circulam por mundo movido pela competição, possa nos revelar os enredos mais lógicos dessas cenas criminosas. Difícil é desvendar as engenharias dos sistemas. Elas vivem nos esconderijos, cultivam disfarces sem remorsos.

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