A violência não cessa de deixar suas marcas

É impressionante como a violência não se distancia da sociedade humana. Tantos séculos de cultura, tantas reflexões, tantas trocas de saberes e o mundo continua fervendo de agressões e de falta de solidariedade. As formas de violência se renovam com uma crueldade inusitada. As invenções sofisticados não conseguem amenizar a aceleração das vaidades, nem as armadilhas do poder. As negociações demoram, os órgãos internacionais não mostram decisão e o desencanto geral provoca apreensões. A pulsão de morte parece firmar sua soberania, apesar das muitas resistências e do desejo de desfazer desmantelos e militarismos.

Se as antes as guerras chamavam a atenção, hoje o cotidiano desperta observações e enche os jornais de notícias inesperadas. Depois, vem a banalização, o que era monstruoso se transforma em comum. O susto se fragiliza, embora a insegurança esteja presente. Além das várias denúncias de pedofilia, misturadas com críticas aos comportamentos de religiosos, tornaram-se escandalosas as agressões nas escolas. Crianças andando com armas, ameaçando e atirando, professora ferida, comércio de droga invadindo espaços públicos onde deveriam prevalecer a pedagogia e o afeto. As tensões fazem alunos se recusarem a estudar e pais sofrerem com os medos dos filhos. Mais uma instituição que se dilui e descontrola-se.

Quem pensa que a fome está longe, engana-se. Os núcleos de miséria não chegam perto da alimentação, catam lixos e perdem esperanças. O caso da Somália já se difundiu. É assustador. A África convive com a fome em várias regiões, enquanto o desperdício existe em muitas sociedades onde predominam a riqueza. No Brasil, com toda a euforia de taxas de consumo, não se pode esquecer que a bolsa- família é disputada para se conseguir o mínimo de alimentação. Faltam moradias, saneamento, hospitais, melhoras na qualidade de vida. São violências, às vezes, pouco comentadas, mas que atingem vidas e anulam expectativas.

Na Síria, o poderoso ditador não cede. Morrem centenas de pessoas na ação sem limites da sua polícia. Há protestos, manifestações de adversários, porém a pressão internacional não o intimida. O país naufraga numa instabilidade sem projetos de reorganização. Kadafi não se entregou de vez. Foge e dificulta o fim da violência na Líbia. Protege-se e manda mensagens desafiando seus inimigos. Considera-se insuperável, uma divindade que não merece ofensa, nem discordância. Até onde a situação trágica se manterá ninguém sabe? O Oriente Médio possui peculiaridades, choques religiosos, autoritarismos seculares. É difícil uma avaliação política mais transparente.

E as grandes potências ocidentais como andam? Discutem a crise financeira em grandes seminários, tentam se salvar com planos de reconstrução, sem no entanto retomar o sossegos de outros tempos. Nos Estados Unidos, há descontentamentos nas ruas, fomes crescentes em muitas cidades e pronunciamentos constantes de Obama. A população não está quieta. A Grécia se mobiliza. O governo toma medidas recessivas e o desemprego aumenta. As gerações mais jovens sentem-se condenadas. O capitalismo enfrenta dissabores fomenta violências, busca ilusões. Como não pode viver sem práticas de exploração se enche de limites e se desnuda. As manobras não cessam, a sociedade oscila no fundo dos seus abismos.

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