A violência possui muitos nomes e lugares

As utopias nos acodem com sonhos. Imaginar outros mundos é saudável. Pior é não buscar alternativas, ficar na leitura de Maquiavel. Não faltam mudanças na história, mas não dá para negar as permanências. Com tantas informações circulando a vida se enche de solicitações. Temos que ver a TV, passar pela  internet, comprar jornais. Ganhamos o título de cidadão interessado e comprometido. Muito sentimento de culpa desaparece, ficamos distraídos, pois o saber traz também descansos, além de agonias. Não há profundidades nas trilhas das informações, no entanto não vamos colocar uma dúvida a cada instante. A vida se desenharia insuportável.

Ler é um hábito, exige continuidade, conhecimento de muitas cartografias. Quanto mais lemos mais argumentos temos para traduzir as sinuosidades das convivências. É a hipótese, não é anúncio de um achado científico. Nada como boas especulações para agitar as conversas. Mesmo que fiquemos no vazio, as informações não saem do cotidiano. Como fugir de tantas noticias velozes e provocadores? Antes a família dominava a curiosidade, com seus casamentos, traições, invejas. Hoje, estamos na aldeia global, as instituições sofrem abalos desmedidos. As informações não respeitam fronteiras, inventa-se, prostitui-se, desconcerta, desacomoda, entristece, assanha, banaliza. Não faltam verbos para qualificá-las. O mundo é vasto e o sentimento caminha pelo inusitado.

Nem por isso, os sustos se ausentam. A violência se reproduz e não escolhe territórios. Assassinatos, pedofilias, assaltos, atropelamentos, rituais, preconceitos. O toque da violência se apresenta na história como espetáculo ou é silencioso, desmanchando convivências, desfazendo crenças, abalando direitos. Estamos encurralados. A luta contra as desigualdades ressurgem, acenam com outras estratégias, porém nos lembram que o capitalismo sobrevive estimulando concorrência e vaidades. A política se veste de pragmatismos, mas não há como negar os desgovernos. Por acaso, existe alguém que se contente com o discurso da inocência e a da boa intenção quando a fome e os hospitais suportam limites, quando a ganância das grande empresas constroem torres, pouco se interessando com o coletivo?

O destaque é dado à violência corporal. Ela atrai, provoca disputas étnicas, redefine sistemas de segurança, convoca entrevistas de psiquiatras. Todos clamam por esclarecimentos, até esquecidos das guerras mundiais, do Vietnã, das perseguições promovidas pelos totalitarismos. Há uma individualização do foco. E a sociabilidade como anda? Os sujeitos criam suas neuroses fora dos espaços de encontros e de disputas? Por que não visualizar outras interpretações que mostrem as explorações sociais? Será que a imobilidade atingiu as relações entre as pessoas? Estamos todos surtados querendo imitar a bruxa inimiga de Branca de Neve?

Há muita distorção intencional na forma como a violência é analisada. A tendência é isolá-la. Torna-se um acontecimento chocante, comentado com amargura. O inacreditável simboliza o conteúdo do vivido. Bastaria alongar olhar para se desfazer de tanta superficialidade. A sociedade não procura fortalecer suas solidariedades. Incentiva, às vezes, o orgulho do mérito de quem elimina o outro. Nem sempre, alguém morre, recebe estilhaços de armas, porém não, apenas, o corpo morre. As frustações, as perdas, os desempregos, as artimanhas dos privilegiados não se entrelaçam com a violência?  Cuidado com a bigbrotherdização do eu.

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2 Comments »

 
  • Valerio disse:

    Antônio

    fazes um alerta necessário, caso não a violência pode ser apenas

    uma lembrança postada na tela: imaterial.

    Mas como dói se for inquirida. Se for, será execrada.

    até breve

  • Valério

    Muitas vezes, não temos dimensão das tantas coisas que atingem o coração. Fechamos as portas e a história continua. Grato, pelas considerações.
    abs
    antonio

 

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