A violência de cada dia: o mundo sem cura

A violência é dominante. Insere-se, na sociedade, sem escolher ou privilegiar lugares. Fere o corpo, desfia a emoção, danifica a utopia, inverte as paisagens, quebra os espelhos. Ela não possui uma única dimensão. Desmembra-se. Tumultua. Perturba. Será que ela acompanha a história, desde os primeiros tempos? Pergunta fundamental que revela permanência e destaca a forma.

A construção da cultura se anuncia com rupturas. Podemos vê-las como espaços de negação e caminhar na direção do simbólico. Os argumentos de Prometeu e seus duelos com os deuses não são gratuitos. A revelação dos mistérios nunca é total.O absoluto é abstração. Acorrentar os desejos faz parte dos eixos das chamadas civilizações. A fuga existe, sem a garantia de que ela finalizar a agonia de ser incompleto.

O simbólico apresenta outros sinais. O corpo ferido não é a mesma coisa da fala arrogante e ofensiva. A violência localiza-se nos dois atos, com tamanhos e ressonâncias diferentes. A dor não é a mesma. A violência se compõe das ardências da dor. Não importa a sua curvatura, nem tampouco o inusitado do seu desenho. O sentimento de perda é comum.

A violência envergonha quem não acredita na força dos demônios e celebra a afirmação soberana dos arcanjos. Mas a complexidade não permite conclusões definitivas. A sociedade anda cercada do bem e do mal ou daquilo que ela nomeia como bem ou como mal. Tudo isso traz um conteúdo histórico, sem contudo, determinar uma solução.

Podemos buscar respostas ou sugestões. A sociedade de consumo usa disfarces. Nenhuma novidade. As máscaras estão presentes no fazer cultural e denunciam, também, que os tempos mudam e se cansam. Por isso, as hierarquias se condenam e desaparecem, não para sempre. É impossível não testemunhar relações sociais que estejam carregadas das artimanhas do poder. Mais uma vez, o cuidado com a uniformidade aparece.

Posso estar em Genebra, no Recife ou em Istambul, no entanto o humano ganha cores desiguais e o voo do tapete mágico encontra ventos sinuosos, com forças que deslocam energias de toda parte. A vida se reparte, não há como querer que não haja fragmentos. Ver a inteireza das coisas é a utopia mais desafiante.

A violência não é parteira da nossa época, soberana e cheia de autonomia. Ela convive com empatias, risos, animações. Dizer que cada época formatou suas dualidades e inventou suas dissidências, não é nenhuma novidade. A continuidade não significa que a história não se configura. Esquecer do diálogo é inaugurar o reino das sombras e se recusar a arquitetar desvios. É um engano comemorar nostalgias e se fixar em saudades.

O tempo corre, tropeça, respira, mas define qual a sua definitiva acrobacia. Quando o Brasil foi derrotado em 1950, pelo Uruguai, parecia que o futebol estava condenado a submergir na tristeza da multidão. Os anos passaram e as verdades se desmontaram. A festa veio em dose dupla e a violência da dor ocupou outros lugares. A possibilidade abre sempre a história de cada momento e da sua reconstrução.

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2 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    Antônio, belo texto!
    Ele me fez lembrar um ensinamento que aprendi, convivendo
    com Edla (nossa amiga em comum), “a Ética existe para nos proteger da violência, que inerente ao ser humano”…
    O desafio maior, do agora, é como tornar a Ética uma toda poderosa, soberana?
    Nos mantermos juntos, ficar perto dos que enxergam as aberturas da vida e as alargam, apostando na “história de cada momento e da sua reconstrução, já nos deixa mais fortes.
    Bom demais, ter Rezende, Edla e tantos outros amigos que não nos deixam “esquecer o diálogo” e perseguir “a inteireza das coisas” como “a utopia mais desafiante”.
    Bjs (para os dois).
    Flávia

  • Flávia

    Conviver com o limite, sendo ele democrático, é uma saída. Devemos sair para essa luta.
    bj
    antonio

 

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