A violência quebra valores e desmonta poderes

              

Na contemporaneidade, é difícil não escapar das notícias de violência. Faz parte das andança dos meios de comunicação e dos desmantelos da vida social, num mundo marcado pela competição. Falta também cuidado para redefinir valores que tragam possibilidades democráticas. Parece que  tudo ou nada prevalece. A violência não ocupa, apenas, a imprensa. Suas cenas estão nas ruas, nos descasos da administração pública, no desinteresse pela tentativa de ampliar projetos de solidariedade. É assunto corrente, desfia a a construção da história.Existem múltiplas formas de entendê-la e configurá-la, pois seu movimento é denso.

Num rápido olhar, observamos várias relações tomadas pelos choques e não pelo diálogo. No Egito, a luta política continua, depois de anos de opressão. Muitos conflitos, com a ordem armada, mostram insatisfações represadas. O autoritarismo se fez presente não permitindo as diferenças culturais, nem o fluir das subjetividades. Muitas vezes, a religião atua para inibir e desfazer sonhos. No momento, há uma atmosfera geral de busca de mais liberdade. Sinais otimistas. Nem sempre, a trilha da conversa resolve, então o agir assume lugares importantes. O novo sangra, na maioria da vezes.

Não só de política vivem as sociedades, nem tampouco ela representa governos ou disputas de cargos. Ela está relacionada com as relações cotidianas de poder. Não há espaço especial para serem instituídas. Infiltram-se pelos sentimentos, pelos desejos, pelas concepções de mundo. É preciso apontar como a violência se espalha, por todos os cantos, e não ar fica restrita à quantidade de revoluções feitas para desfazer sistemas.

Há movimentos ou inércias que perturbam. A morte de idoso que esperou 18 horas por uma ambulância deveria ser algo fantasioso, página de ficção. Mas aconteceu e está nos jornais. José Caetano tinha 74 anos sofria de diabetes e problemas cardíacos. Tudo isso ocorreu, no Cabo de Santo Agostinho. Os servições do SAMU não conseguem atender as demandas da população. A negligência ou o excesso de burocracia? Saúde ou quantidade de automóveis nas avenidas atrapalhando o trânsito? O que vale mais?

A violência quebra valores e desmonta tradições. Ninguém desconhece a sua força. No entanto, muitos ignoram o seu simbolismo cruel. O Brasil está procurando caminhar para as Olimpíadas, com sua equipe de jovens futebolistas. Compete, no Peru, com outros países das América do Sul. Imaginem que os preconceitos raciais ainda permanecem, num esporte que atinge multidões. Um dos jogadores do time verde-amarelo foi chamado de macaco, porque é negro. Não é a primeira vez, nem a última. Ocorre, vez por outra, também na Europa.

Sobram notícias. Não é necessário quantificar. A intenção é lembrar as omissões diante de violências que cortam o fluir das relações sociais. Exalta-se o sensacionalismo e desmancha-se o afeto. O valor de troca prevalece, pois o reino da mercadoria se mostra absoluto. Os acontecimentos rendem pelo que possuem de extraordinário. Despreza-se o descontrole que habita muitos cotidianos. É, na repetição, que a violência desfigura a fraternidade. Não há negar que o rompimento com dominações seculares exige coragem. Triste é a miséria e o desgoverno alimentarem  a violência, haver colo para o preconceito.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

2 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    Antonio,
    Seus textos hoje, de palavras e imagens, entrelaçam sentimentos de indignação, de melancolia, de abandono “sem flores se abrindo.” Desperta a noite interior que habita cada coração. Faz com que busquemos, nas profundezas dos sentimentos mais íntimos, o gosto amargo da repulsa à violência.
    Chega, inclusive, a dar certo remorso por coexistir em meio a tudo isso….
    Parece um grito altissonante a nos dizer que “tudo ou nada prevalece”.
    Mas, como a sua palavra, Antonio, tem muita leveza e magia, o “nada” de repente nos preenche com “o tudo”, ou com o “quase tudo”.
    A mesma escrita que nos ajuda a constatar que quase sempre confundimos, em nossa vã existência, a distração com o contentamento, o devaneio com a felicidade, nos mantém vivos e de pé para perseguir a solidariedade, a fraternidade, o fluir das relações sociais.
    O seu texto nos encoraja, de forma também intensa, a buscar, a redefinir valores que tragam outras possibilidades, outra atmosfera, outras opções políticas, outros cantos.
    Grata pela reflexão, pelo necessário “choque de realidade” e pela possibilidade diária de revisar o nosso viver.
    Me despeço pensativa e, ao mesmo tempo, com vontade maior de despertar, de contagiar outros, de ampliar manhãs, de entoar com mais ludicidade: “eu quero sair, eu quero falar, eu quero ensinar um vizinho a cantar, nas manhãs de setembro, nas manhãs de setembro”…
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    A violência possui um espaço imenso no mundo. Está presente em detalhes. Ficamos ficando nos chamados grandes feitos e perdemos de vista o cotidiano que quebra o ânimo. Está atento às diferenças, parece uma saída, para não fechar o mundo e esconder a esperança.
    bjs
    antonio paulo

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>