Feliciano: a sociedade não se descuida das polêmicas

Marco Feliciano tornou-se uma figura cortejada e amaldiçoada. Ficou conhecido em todas as conversas. Para alguns é um profeta do apocalipse, para outros defende a honra da família. As inquietações circulam nas redes sociais. Não falta criatividade: fotos, charges, dizeres, gravuras. Há também o choque das crenças. As religiões disputam espaços, querem ser ouvidas e colocadas nas cercanias do poder. O mundo é outro. As preces pedem lugares especiais na política, parecem esquecer os paradigmas do cristianismo. Quem pensava na santificação, hoje fica perturbado com as tentações do consumo. Não é exagero afirmar que a desconfiança toma conta dos olhares mesmo que estejam plenos de inocência.

Feliciano é múltiplo. Provoca, possui inimigos ferrenhos, não cede aos apelos, busca consolidar um comportamento ameaçador. Volta à discussão sobre o estado laico que se imaginava num passado perdido. Nas últimas eleições presidenciais, sinais de polêmicas tradicionais ganharam o noticiário. Ninguém se compromete com o ateísmo, todos se consideram emissários de crenças e anjos celestiais. Assim, se fabricam votos, se acumulam prestígios nas corridas partidárias, a democracia foge para que os malabarismos distorçam e enganem. Sentimos nostalgias, o pragmatismo confunde e massifica.

A história não contém um único tempo. Há muita coisa lá no fundo do oceano, muitas sereias perdidas, muitos demônios adormecidos. A diversidade cultural aumenta de forma veloz. Comunicar qual é a verdade hegemônica virou uma agonia constante. Estamos numa sociedade de conflitos, mas quem, efetivamente, comanda e alimenta os conflitos? Feliciano joga com a diluição de costumes, inventa salvações, mostra que a solidão não faz parte do seu paraíso. As crises promovem aberturas para medrosos. Quantos não se acham protegidos pelos discursos preconceituosos? Se há quem critique e desvende, há quem se sinta ofendido e naturalize as diferenças.

As repetições dos chamados escândalos morais não se distanciaram da modernidade. Quem adivinharia que as instituições religiosas se infiltrariam nos meios de comunicação com capitais para construir impérios? A notícia esclarece, seduz, mas também aprisiona e embriaga. Não é possível encher os templos com apenas as leituras dos livros sagrados. Mudaram o conteúdo dos sermões, destacam os escolhidos para usufruir da prosperidade. Há os eleitos e abençoados pelas orações ensaiadas nas TVs. O simulacro estende seus significados, garante que os cartões de crédito sejam bem aceitos pelos homens de fé.Há temas que aprofundam discórdias e ressentimentos que podem gerar violências.

Feliciano não é ingênuo. Passeia no seu trapézio com maestria. Não dispensa as imagens, procura sentir-se uma vítima e um fiel seguidor da vontade do senhor. Anda ajudado por grupos, não é uma voz desinteressada, envolvida com a generosidade e o apoio aos desfavorecidos. Seu lugar no Congresso é precioso. Existem inúmeras misérias sociais atingindo boa parte da população, mas ele se mantém na vitrine, contrariando princípios tão defendidos por uma sociedade dita moderna. É bom não apagar os protestos contra Feliciano e também recordar que outras figuras desfilam petulâncias. Nunca é recomendável ocultar que a sociedade se movimenta no meio de contradições. O deputado representa muita gente, não voa solitário.

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2 Comments »

 
  • Anderson Rodrigues disse:

    As polêmicas midiáticas distanciam o verdadeiro significado da política. Ser polêmico nos dá ibope e Feliciano sabe disso. Para mim, não existe políticos comprometidos com causa alguma, apenas seguem os caminhos procurando mais seguidores. A religião em muitos casos tornou-se um negocio ou fonte de promoção e os movimentos ativistas mostram-se cada vez mais radicais. Enquanto isso seguimos nesses extremos que talvez não tenha saída.

  • Anderson

    A política se move no interesse. Isso esvazia a vontade de mudar e acaba com a confiança.Muita exaltação de TVs e falta de compromisso.
    abs
    antonio

 

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