O Barcelona: questões e nostalgias intrigantes

O futebol diz muito do tempo que vivemos. Insisto que é um equívoco tratá-lo com assunto de segunda categoria. Ele está presente na vida do povo, marca a cultura e conversa com as artimanhas sociais. Não vive, apenas, do brilho do espetáculo. As torcidas se mobilizam, formam redes sociais, desafiam os adversários, atiçam violências, pedem atenção aos dirigentes. Há muita paixão, mas também críticas e insatisfações que mostram corrupções e desmandos tão comuns nos clubes. Portanto, o conformismo tem suas quedas, muros são pichados, salários questionados, manipulações denunciadas. O futebol não é, simplesmente, diversão e disputa. Revela a dimensão de práticas sociais e a renovação de hábitos.

A sensação do ano de 2011 foi o time do Barcelona. Trouxe sonhos e desfez mitos. Deixou especialistas perplexos. Muitos técnicos se abalaram com suas táticas pragmáticas e cheias de elogios a força física dos jogadores. Ficam empolgados com vitória mínimas. A arte, para eles, é um excesso. A carreira do badalado Carlos Alberto Parreira é ponto claro de observação. Sempre louvado pela imprensa, com conversa solta e diplomática, organizou a seleção no título de 1994. Sobraram ensinamentos e vaidades, porém faltou malabarismo. Criou-se a ordem do feio não é bonito, com justificativas abrangentes. Afinal, vale ganhar e sacudir fora as lágrimas.

Nem tudo morreu silêncio. O gosto amargo não se foi. Os passes desarticulados, os chutões sem direção, o uso frequente dos famosos chuveirinhos tornaram-se comuns. Luxemburgo, Tite, Lazaroni, Muricy e tantos formaram um geração ligada aos contratos milionários e à exaltação ao futebol europeu, aquele dos grandalhões no meio campo peritos nos carrinhos intimidativos. O mestre Telê perdeu espaço. Sua seleção perdeu a Copa do Mundo, apesar de firmar um futebol sedutor, mas a derrota manchou tudo. Os pragmáticos multiplicaram suas energias e seus cofres. Festejaram um futebol de linhas retas, previsível, no lugar de negociações obscuras e craques efêmeros. Cadê Garrincha, Tostão, Zico, Pelé, Didi ?

As idas e vindas da história permanecem, avivando a memória e retomando convivências. O Barcelona estruturou-se, enfatizando o trabalho de base, estimulando a magia da bola, celebrando as lições dadas pelo futebol brasileiro e a desenvoltura da seleção holandesa, a admirada Laranja Mecânica. Houve planejamento e paciência. Tudo se arquitetou com o olhar no  futuro, mas sem a pressa  marcante da sociedade contemporânea. Era com se pescasse pérolas. Os resultados se construiriam, pois certos princípios garantiam a continuidade. Os jogadores aprenderiam uma forma de atuar que contrariava o que dominava, portanto desmanchariam verdades consagradas.

O Barcelona deslumbra todos. Há a figura exemplar de Messi, porém a orquestra possui repertórios. Toca jazz, samba , adágios, tangos… Não precisa de músicos corpulentos e vitaminados. No entanto, sobra harmonia, com dissonâncias que distraem os adversários. Relativiza a relação ataque/defesa, produz geometrias curvas e não sossega. O objetivo é fazer a bola correr, sem agonia e balançar as redes, sempre que possível. No final do ano, os debates sobre a caminhada do Barcelona e a nostalgia dos velhos tempos cresceram. Melhor para futebol, para quem não cultiva os resultados e a mesmice.

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3 Comments »

 
  • Amanda Suellen Oliveira disse:

    Quero desejar-lhe,profº Antônio Rezende,um Feliz Ano Novo!Que este ano possa ser repleto de realizações e crescimento em sabedoria.Desejo-lhe muita paz e saúde.
    Abs,
    Amanda.

  • Amanda

    Tudo de bom. Paz, saúde e sorte. Vamos manter nossa convivência.
    abs
    antonio

  • Amanda Suellen Oliveira disse:

    Claro!Será um prazer-aliás,já tem sido- poder receber e retribuir aqui no blog!

 

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