A volta sempre traz muitas histórias e travessias

Voltei. Cheguei sábado, depois de horas perdidas nas confusões de aeroporto. Foi um bom momento de vida e com surpresas, componentes de toda viagem. Vou comentá-las, sem agonias, pois trazem reflexões interessantes. Gosto de observar, sem deslumbramento. O mundo gira e  é mesmo uma aldeia global. Os entrelaçamentos são muitos. Não deu para escrever, lá em Paris, porém a memória ajudará a seguir adiante.

Desliguei-me das coisas daqui. Firmei meu olhar no cotidiano vivido, num frio que deixava vontade de dormir sempre. Não deixei, no entanto, de correr também para os jornais e me atualizar. Portanto, dedico o retorno ao que vi na chegada e reanimo meu diálogo com a terra querida. Muitas saudades, desse sol e das luzes do Recife. Precisamos de sair dessa desigualdade que foca uma miséria terrível. Não faltam beleza e criatividade, necessitamos aumentá-las.

No futebol, os grandes continuam colhendo as amarguras de um ano, sem dádivas. Muitos erros, jogadores sem motivação e batalhas perdidas. Promessas se perdem na vaidade dos dirigentes. As escolhas são cheias de perplexidades  e de buscas de orgulhos desmesurados. Isso atrapalha muito. Depois, vem a queda e a lamentação. As torcidas continuam inquietas com tantos desacertos. A possibilidade de ir para a série A se distancia.

O Flu ganhou e  mereceu. Nada de maravilhas. Foi um campeonato fraco. Carências de craques marcantes e muito chutão. O Corinthians pensava numa consagração total. Não deu. Armou, fez festas antecipadas, porém o tricolor está por cima. Esperamos que a qualidade seja refeita. É preciso reformular os times e não desejar a grana de todo jeito. Muita ambição, com empresários metidos nas tramas.

O país se renova. Possui uma travessia. Defeitos não estão derrubados. Eles são  graves. Resta caminhar, não se empolgando com a quantidade. Parece uma epidemia. O modelo norte-americano prevalece. Cavamos um buraco para o futuro, em nome de um desenvolvimento que visa acumulação e passa longe da ética. O mundo está tomado pelas peripécias da competição e nos transforma em consumidores. A cidadania se fragiliza.

Tudo se comunica.O estreitamento é contínuo, mas a valorização das identidades culturais não é ponto de apoio. Só se quer ser o que se pode consolidar como mercadoria. Com isso a diversidade se estraçalha e a mesmice se alarga. O futebol se empobrece e as relações sociais se deleitam com as liquidações natalinas. O olhar para o outro é pragmático. Isso está globalizado. Como se desviar desses desencontros?

Pretendo ensaiar alguns diálogos sobre essa minha andança pela França. Não esquecer de dividir a experiência. Gosto de conversar e socializar. Por isso, fico meio triste, com tantas vitórias do invidividualismo. Não custa   abrir outros rumos. Uma vida disfarçada, no reino das mercadorias, termina diminuindo a nossa capacidade de invenção. A pressa contagia e dilacera.

Nem notamos o vulcão queimando. A violência torna-se um espetáculo e nós, entorpecidos. Os espelhos são as imagens das coberturas televisivas? Pois é. Nada de se mudar para dentro do quarto e se fechar no escuro. O coração é forte, quando não se esconde e se estende pelas travessias.

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4 Comments »

 
  • marcio lucema disse:

    Antonio,

    A escolha da imagem da rua da Aurora (luz impressionante, sobrados magros, pequena flor, “Capiberibe, Capiberibe”…) denuncia a “ferida” da saudade da cidade
    Acho que viajar contribui para a construção de novos olhares sobre o mundo e a vida, pois os contrastes e o afastamento podem permitir a visão de novas auroras…

    Abraço
    Marcio Lucena

  • Flávia Campos disse:

    Antonio Paulo,
    o bom da viagem é o retorno!
    Seja bem vindo a terrinha das águas.
    Bela foto. Me fez lembrar Jorge L. Borges:
    “A cidade está em mim como um poema
    que não consegui explicar em palavras.”
    Abs
    Flávia Campos

  • Flávia
    Grato pela presença. Aguardo sempre as boas visitas.
    abs
    antonio

  • Márcio

    O retorno traz muitas cores e carências. Seu comentário foi sábio. Grato.
    abs
    antonio paulo

 

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