Agualusa, a invenção do passado, as travessias da cultura

Estamos envolvidos com o presente, mas não de forma absoluta. Temos que assumir certos valores, discuti-los e contemplar cenas que deveriam estar distantes. Não podemos exercer controles fixos. Há fingimentos que não percebemos e dores banalizadas nas notícias dos jornais. O cotidiano apresenta-se, mostra que os sonhos vacilam e as mudanças se escondem nos discursos. Portanto, não faltam frustrações, mas é preciso ir adiante. Sem movimento, a história espera o impossível, cria um tempo de fantasias nada envolventes. Mesmo que as decepções cresçam, desistir é fechar a porta e decretar o suicídio do ânimo.

O presente é um ponto de partida. Dele visualizamos interrogações desenhadas na imaginação e conversamos com a memória. Não há interrupção nos diálogos. Não há certeza de que as verdades permaneçam quietas. A corrida é grande, pois a invenção acompanha a história. Quem duvida leia O Vendedor de Passados de Eduardo Agualusa. Observe como a vida possui cores dispersas que, às vezes, reúnem datas e acontecimentos repletos de multiplicidades e desenganos. Há melancolias, no entanto, sobram espaços para retornos ou (res)significações radicais. De repente, não somos os mesmos. Apostamos nos desejos ousados, dispensamos certos medos, acolhemos memória antigas e fundamentais.

As carências compõem os instantes. Não pertencemos a um único tempo. Por isso o incessante diálogo entre presente, passado e futuro. Santo Agostinho já navegou pelos mares do tempo com maestria incomum. As utopias nos jogam para paraísos, adivinham fórmulas mágicas, mas terminam desandando. O pragmatismo continua firme. Não dá para adivinhar, mas para sobreviver. O mundo está construído por arquiteturas de mercadorias. Não existe um desenho que sintetize as aventuras que vivemos. Os tempos lançam-se em exílios, identidades, fugas rápidas. O  desafiante é a harmonia, a ausência de conflito. As teorias fogem de lugares conhecidos, porém as repetições ainda encontram refúgios.

Pensamos, muitas vezes, que estamos contando uma história que circula sem pedir ornamentos. Tudo simples, como uma cronologia do mais medíocre serviço burocrático. Há, contudo, respirações descontínuas. Conviver com a mediocridade é acelerar o fim de qualquer energia vital. Não há como abandonar o risco. A simplicidade pode ser uma ilusão. A complexidade nos arrasta para perplexidades. Não é à toa que as chamadas realidades se desfiguram. Os amores redefinem o tamanho dos afetos. Não somos senhores  de um mundo acabado, sem desconfortos. Resta-nos a invenção. A cultura é sempre travessia que interrompe jogos e promessas. Não pense que Ulisses é metáfora perdida. Há símbolos que se aventuram descobrindo sereias, narrando história.

A memória merece e cuidado.Ela arma-se de verdades e mentiras. Gostamos das dualidades. Mas os espelhos das verdades e das mentiras possuem formas desiguais. As estéticas da vida entrelaçam sentimentos. Joyce trouxe Ulisses para contemporaneidade. Quem anula as astúcias ou celebra a preguiça dos cadáveres? Será que existe esse apego ao instante, esses menosprezo pelo que se foi? Não deixo de tocar em Descartes. Não seria exagero afirmar que Narro, logo Existo. Que me perdoem as letras maiúsculas! A memória me ajuda a ultrapassar os limites e reconfigurar rebeldias.

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