Alguma coisa acontece no meu coração

O título do texto está na canção Sampa de Caetano Veloso. Há uma singularidade digna de um poeta que não cessa de inventar. No seu verso, Caetano fala de acontecimento, mas não no sentido de guerras ou conquistas políticas. Ele cita o coração. O mundo girando por outras trilhas, encontrando-se com o sentimento. A história ganha  territórios que muitos teimam em desprezar. Existem certos preconceitos com as emoções, sobretudo na cabeça de quem se segura na sua inabalável objetividade. A vida é uma imensidão de encontros, nem todos guardados com segurança. Os sentimentos navegam por instabilidades, por isso acompanham as viagens de Ulisses, os poemas de Fernando Pessoa, as pinturas de Van Gogh. A cultura não é, apenas, acúmulo de monumentos, de acervos sistematizados.

 O imaginário social é criativo, ultrapassa os limites das fórmulas e dos códigos endurecidos. Caetano já anunciou, em outras músicas, sua observação sobre a complexidade das relações humanas e a multiplicidade das suas cores. Quem não se recorda do impacto que teve Alegria, Alegria? Sem lenço, nem documento, também se caminha, com sol ou neblina, as sociedades vão abrindo esconderijos e firmando desejos. Tudo pode ser muito passageiro, mas fica a memória, o prazer ou a amargura. A letra de Sampa descreve uma cidade repleta de ambiguidade. É uma metrópole fabulosa. São Paulo não é uma exceção. Tóquio, Buenos Aires, Rio de Janeiros, Paris possuem sua paisagens de sonhos e inquietudes. A cidade é a moradia, mesmo com  tormentos e  conflitos. Ela não se resume aos ruídos das buzinas de automóveis, porém recebe as turbulências e os afetos da contemporaneidade.

Caetano ressalta o papel da grana. Ela não está afastada da construção das coisas belas. Não é o lixo ou o paraíso do luxo. A corrida, para disputá-la, é motivo de agressividade e de lutas violentas. As ruas são fotografias de idas e vindas silenciosas. Gestos, suspiros, conversas, desamparos. As avenidas principais contam aventuras que não se repetem ou gravam pedidos permanentes. Cada espaço elege sua cartografia que não foge de desenhos definitivos. Lá está o sentimento sacudindo o coração, balançando o corpo. Quem narra tantas tergiversações e ousadias? Quem estende os encantos e frustra as esperanças? Os estranhamento são muitos. Caetano não os olvida. São Paulo tem muitos pertencimentos, acolhe pessoas diferentes que, nunca, se defrontaram com tanto barulho e tantas negociações.

Assusta, ressuscita, desanima. Nem todos se entrelaçam com seu ritmo, nem conjuga seus verbos mais usuais. Alguns olham o esplendor, perdem-se nos deslumbramentos. Outros não sossegam, entram na velocidade das ansiedades, sem controle. A cidade tem passado, intérpretes,  identificações. As magias ocupam suas relações com os habitantes, vestem-se de personagens, ornamentam cenários.Como é realmente a cidade sob esse carregado invólucro de símbolos, o que contém e o que esconde, ao se sair de Tamara é impossível saber (Italo Calvino). As cidades dialogam com seus tempos e as fantasias dos seus poetas. Talvez, síntese de cosmos, elas comuniquem o rumor agudo do humano, na radicalização das suas dores.

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2 Comments »

 
  • Monique disse:

    Ainda bem que temos os poetas, e artistas em geral, para fugir dos rasos determinismos de concreto que sinalizam as cidades.
    A sensibilidade que liberta várias possibilidades de interpretações e também ajuda a revelar o invisível aos olhos desatentos.
    Ainda hoje(coincidentemente) ouvi Caetano cantando Chico Buarque e uma belíssima passagem da música mostra a transcendência para além das fatalidades:

    “Morena, dos olhos d’água,
    Tira os seus olhos do mar.
    Vem ver que A VIDA AINDA VALE
    O SORRISO QUE EU TENHO
    PRA LHE DAR.”

    abs,Antonio Paulo!!

  • Monique
    Poucos conseguem cantar com Caetano. É um afeto.
    abs
    antonio paulo

 

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