Aliados ou amigos: a política reinventa manobras

Discutir a questão política tornou-se assunto enfadonho diante do pragmatismo que invade cada milímetro do social. Obter sucesso, ganhar cargos, dirigir hierarquias, atraem a maioria. É bom ressaltar que a lógica da dominação não admite socialização do poder. Não faltam discursos sobre a democracia, condenações aos golpes de estado, afirmação de planejamentos sociais. Na prática, as farsas são grandes, com honrosas exceções. Não vamos anunciar a desordem universal, sem sepultamento de todos os sonhos. A multiplicidade continua e a cultura não se abastece, apenas, das manipulações e das vaidades. Leia os poemas de Neruda, ouça Miles Davis, dê uma olhada em Fellini. Não abandone o reencanto.

O importante é que a história corre e somos acompanhados por sequências de comportamentos políticos. Eles mudam  expectativas numa fração de segundos. Há quem aposte no voto nulo como forma de extirpar as decepções. A polêmica estende-se. E o perigo de esvaziar a dimensão da escolha, de não fermentar o debate, de desanimar a cidadania? Negar-se a enfrentar as dificuldades, talvez, não seja a trilha que o movimento exige para assanhar as inquietudes. A crítica é acesa, a desconfiança aumenta, mas os sorrisos aparecem nas páginas de jornal, perturbando os acomodados e os rebeldes.

Lá estão Maluf, Lula, Eduardo, Jarbas, João da Costa, João Paulo e tantos outros que, antes, não cruzavam a mesma rua. Refazem estratégias para convencer eleitores. Prendem-se ao instante. Tudo é medido. Cada foto representa um tempo na TV, um apoio de militantes. Não existe garantia de permanências. Os partidos estão embriagados pelo pragmatismo. Não há uma intimidade entre a política e a economia? Não estamos numa sociedade capitalista? Onde residem as forças de combate ao valor de troca e à expansão da mais-valia? Todos são iguais perante a lei?  Para alguns, vale definir as alianças, esquecer os dissabores do passado e as amizades vacilantes.

Muita imaginação que convoca todos para reviravoltas. O que parecia impossível ganha espaços. Quem fica indignado busca alternativa, quem entra na dança não se afasta dos ritmos das lideranças. O que restará dessas manobras não cabe em profecias. Dilma mantém sua popularidade, segundo as últimas pesquisas. Eduardo amplia seu comando, porém não se mostra distante das simpatias de Lula. João da Costa veste-se de esfinge. Maluf não deixa o cinismo de lado. Humberto fecha acordos com quem nunca esperava. As futuras eleições presidenciais atravessam os pactos. Penetrar nos mistérios é tarefa de adivinhos.

Os aliados se acertam. Estimam a quantidade de votos. Retomam detalhes, instruídos pelos especialistas em avaliar as entradas nos meios de comunicação. Não se trata de conciliar convivências. As aparências merecem todo cuidado, mesmo que, depois, a cabeça role e o ostracismo determine a falência das estratégias combinadas. Amanhã é outro dia, as utopias persistem, contudo a quantidade de votos significa que a sociedade se incorporou a projetos e o poder se estica. O desenho do pragmatismo é ousado, porque admite a soberania dos resultados. As intrigas sobrevivem. Outras eleições virão. O problema é esquecer o sorriso e abraçar a pessoa errada.

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