Almodóvar, Julieta, Ulisses: navegações

Pouco sei sobre os rigores da crítica cinematográfica. No entanto, estou sempre comentando os filmes e decifrando coisas que me tocam. Fazia tempo que não frequentava os cinemas. Não me sentia atraído. Uma fase de reflexão interior, caseira, escutando a própria voz. A existência constrói suas trilhas e temos que avistar suas pedras, planícies, paisagens e mergulhar nas águas para levantar a poeira. Resolvi assistir ao novo flime do instigante Almodóvar. Sempre polêmico, provoca idas e vindas nas dúvidas e sacode o sentimento. Navega pela vida, com astúcia e significados profundos. A nudez das imagens representam formas únicas e não transparentes. Não há descanso, porém subjetividades flutuantes e desenganadas.

Julieta é a senhora dos mitos. Bela e sensível, parece uma fada contemporânea. Conhece a história de Ulisses. Volta-se para as origens das fantasias. Está em harmonia com a fundação do mundo, mas não consegue elucidar  o que lhe inquieta. Sofre, sente culpa. Busca perdão. Os impasses se entrelaçam com as ambiguidades. Julieta se assusta com as curvas do seu barco, com os mistérios dos seus amores. Custa a entender a autonomia, não possui a força para enfrentar o estranho. Fala de Ulisses, porém não desfia suas aventuras. Seu movimento deprime suas relações com o afeto. Testemunha perplexidades, abre as janelas para entender o mundo. Almodóvar nos deixa expectantes. A beleza  sedutora de Julieta não distrai as amarguras. Somos companheiros do exílio que assombra cada cenário.

O filme nos traz uma estética que cativa. Os detalhes são reveladores ou dúbios. É preciso não se descuidar da contemplação. Excesso de objetividade  nos leva para o lugar dos incêndios. Julieta pede, afeta, está presa num labirinto,  para que o acaso lhe socorra. A tragédia persegue a concretização dos seus sonhos. Adormece para não apagar as lembranças, muda de lugar para animar o que parecia perdido. Talvez, uma sessão com Freud lembrasse seus êxodos e aliviasse os ferimentos do enigmas. Freud  se curvaria diante da beleza de Julieta? É bom especular, sair das medidas exatas.Não há mundo não sem dúvidas. Anjos e fantasmas desfilam nas luzes e na sombras. Não dá para saber o segredo de todas as esfinges. Ele tem metamorfoses sublimes. Desconcentra.

Julieta não desiste. É acolhida pelo inesperado. Nem adivinha qual será o fim da peregrinação. Levita quando reclama da lei da gravidade, desespera-se quando a sorte abandona o seu tempo. O humano está escrito nas sinalizações do caminho. Talvez, como Ulisses, queira o reencontro definitivo com o amor. Deseja que um manto lhe aqueça, que os mitos exterminem os azares e a navegação não seja interrompida pela tempestade. Há loucura e delírio. A cortina se fecha.Deixei sala do cinema com Julieta. Depois, ela sumiu repentinamente. Eu a vi no banco da praça dialogando com a Almodóvar. Ria e gesticulava. Corri para casa assustado, imaginando meu chá de camomila e o silêncio do quarto.Tudo se toca, quando a sensibilidade nos invade e nos seduz. A culpa e o perdão são jogos, nada divertidos e passageiros.

 

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