Amores serenos, paixões delirantes, histórias soltas

A afetividade não deixa de ser um registro que me toca. Fico perplexo quando ouço pessoas desprezando-a,  afirmando que se trata de um assunto sem ressonância entre as coisas chamadas sérias. O que seria a vida sem a aproximação dos outros, sem o olhar apaixonado, sem a cabeça no colo? Há tantos exemplos que esgotariam qualquer texto. A história e a vida se misturam. Contar as nossas aventuras nos dá estímulos, reforça convivências, alarga emoções e consolida sentimentos. Há muitas amarguras. Não somos únicos, nem temos destinos traçados com sinais imutáveis. A multiplicidade e a incompletude ajudam a contemplar as gramáticas da vida, a renovar as palavras e a reconfigurar o que foi vivido.

Como fazer tudo isso sem se envolver com os afetos? Freud que o diga. Para mim, é, totalmente, impossível. A história possui inúmeras epidemias desastrosas, culturas ditas exóticas, ídolos inesquecíveis, mas as sociabilidades se transformam, agitando corações e redefinindo carências. O amor de Psique  não é amor das personagens de Gabriel García Márquez. Até Zeus tinha paixões provocadoras de tumultos no Olimpo. As descontinuidades não fogem do mundo, porém Ulisses e Penélope são mitos fundadores, simbolizam conquistas, ritmos afetivos oceânicos.

Na sociedade contemporânea, a pressa transtorna as práticas afetivas. o trabalho mecânico exige eficiência, concentração e a ciência requer cuidados especiais. Enfatiza-se o econômico como uma força descomunal. Mesmo no reino da produção como age alguém que está magoado, perdido nas suas trilhas de desencontros ? Não há conexão ou a vida é, apenas, pedaços soltos sem sentidos e articulações? Todos têm preferências. Não entremos na fantasia de um amor sem hesitações, de uma paixão eterna e fiel. Existem as desconfianças, os perfumes dos corpos, as simpatias surpreendentes. Tudo espelha uma complexidade atuante.

Não visualizemos os filmes de Chaplin, na mesma dimensão dos filmes de Visconti. A programação das TVs dos anos de 1970 não parecem com as do século XXI. Não neguemos certas semelhanças, porém as diferenças são marcantes. O amor não se foi, persiste, enfrenta comportamentos egocêntricos, não se afasta de empolgações e conversas, move o cotidiano. Os apaixonados esquecem compromissos, desfazem agendas, correm em busca de todas as ilusões possíveis. As decepções aparecem, mobilizam desistências. Melancólico é passar o domingo assistindo às pegadinhas do Faustão, comendo salgadinhos e contando as horas para a chegada da segunda-feira. A solidão pode devastar o ânimo e estragar os sonhos. Todo cuidado é pouco.

O amor inventa-se, transpõe épocas, troca seu charme, desloca  emoções. Como afirmar que tudo isso é insignificante, só vale como fofoca de novelas ou assuntos de revistas medíocres? A rejeição ao afeto como tema de reflexões históricas é ponto de muita indagação? Será que não há um medo de analisar o que está próximo, o que muitas vezes nos tira a serenidade? Por que essa mania de achar que a história é o passado remoto? E vida que corre no presente não se infiltra nas relações e acende os desejos? Quem se esconde das perguntas? As instabilidades narram histórias, humanamente, possíveis.

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2 Comments »

 
  • Monnyke Olga disse:

    Que bela surpresa foi saber da existência do seu blog, professor. Em meio a tantos alunos, não espero que se recorde de mim. Posso afirmar, contudo, que sempre lembrarei o grande mestre que foi e sempre será. Seus ensinamentos ultrapassaram a sala de aula e me seguem até hoje pela vida.

    Obrigada, Mestre!

    Abraço,

    Monnyke Assunção

  • Monnyke

    Grato, pela boa energia e espero vê-la sempre por aqui. É sempre bom o reencontro. Lembro-me bem das pessoas, mas os nomes , às vezes, esqueço.
    Espero que esteja bem.
    abs
    antonio paulo

 

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